segunda-feira, 27 de setembro de 2010

"Os Nossos Olhares" 23º Capítulo

-Amiga então essa noite.

Rodei na cama, entreabri os olhos, vi a Joana meia desfocada e tapei a cabeça com a almofada.

-Agora não Jo, é muito cedo só trabalho à tarde, estou com uma dor de cabeça horrível, deixa-me dormir, por favor.

-Não aguento a curiosidade, a noite ontem foi fogosa? – Perguntou a Joana sentando-se na beirinha da minha cama.

-Chata, melga... – Disse, em tom mais alto. - Logo conto-te tudinho. Com calma…

-Mais logo não me escapas, já são horas demais à espera.

A Joana resignou-se e saiu do meu quarto. Tentei voltar a dormir, mas não consegui pregar olho, a dor de cabeça começou a torturar-me além de sentir uma sede enorme.
“Mas quem me manda beber, já sei que ao outro dia é sempre o mesmo martírio, tenho sempre direito a uma ressaca f*****” – pensava enquanto procurava um comprimido para a dor de cabeça. Fui à cozinha, tomei o comprimido com um copo de água.
O David começou a invadir-me os pensamentos.

-Será que também lhe dói a cabeça? Que está com ressaca? Que já pensou hoje em mim, como eu estou a pensar nele? – pensei alto, e ri-me sozinha.

Ao ouvirem-me a falar o Toni e a Noa vieram ao meu encontro.

-A dona não está de juízo perfeito, mas está bem disposta apesar desta dor de cabeça – fiz uma festinha em cada um e continuei - Vou-vos contar um segredo que fica entre nós três, quer dizer logo conto à Joana, vai ficar entre nós os quatro –baixei-me um pouco para ficar mais à altura deles - Adoro estar com o David, sabem aquele jogador que tem uns cachinhos lindos, faz-me sentir tãooooooo viva – dei uma gargalhada.

O Toni, saniscou o rabo como que a dar a entender que estava feliz por mim.

-Bem companheiro vou tomar banho e já te levo a dar a tua voltinha matinal.

Tomei um duche rápido e a dor de cabeça estava ligeiramente mais suave, mas a secura na boca continuava. Apenas consegui beber um iogurte ao pequeno-almoço, parecia que o meu estômago fervilhava.
Não conseguia afastar as imagens e as conversas que havia tido com o David na noite anterior, estava tudo tão nítido na minha cabeça. “Ai, ai onde me estou a meter”.
Enquanto passeava o Toni no parque pertinho  de minha casa reparava que estava um daqueles dias que me agradava, o sol era o rei, nem uma única nuvem a incomodá-lo, apesar do sol radiante não estava calor o que fazia com que cheirasse a Outono, a minha estação do ano preferida, não havia estação do ano com cores mais bonitas do que os tons de Outono, as paisagens tornavam-se num misto de cores, amarelas, vermelhas, castanhas e um pouco de verde, era o quadro perfeito para tirar umas fotos fantásticas.
Cheguei a casa e não sabia como ocupar o tempo e afinal ainda era cedo e eu tinha só trabalho marcado para as duas da tarde.

“Que vou fazer? Apetece-me ficar em casa a molengar…”

Para qualquer lado que me movia em casa os meus bichinhos seguiam-me e eu continuava a manter uma conversa animada com eles.

-Vou ver um filme! Boa ideia. Vou escolher uma comédia romântica, apetece-me rir, concordam? – perguntei-lhes e sorri.

Sentei-me em cima da minha cama com o Toni de um lado e a Noa do outro, com o computador à frente.
Ao ligar o computador, os meus olhos bateram logo numa pasta especial:

“Fotos David”.

-Hum, se calhar vou dar primeiro uma espreitadela a esta pasta – e fiz um sorriso atrevido.

Mal a imagem do David surgiu no ecrã a Noa foi-lhe tocar com a patita.

-Também gostas? É lindo este menino – disse divertida e ela olhou para mim como que a dar indicações que concordava comigo.

Comecei a admirar foto a foto, a reparar em cada pormenor do rosto dele.

“Os caracóis são perfeitos, parece que os canudinhos foram feitos cuidadosamente um a um, com grande delicadeza. E os olhos dele, que se misturam num castanho e verde, com um olhar doce e brilhante, profundo, cativante, um olhar que me, domina, perturba que deixa com duvidas. E aquela boca em formato atraente, ai meu Deus, que me prende e não quero mais largar, lábios macios mas vigorosos, um sorriso dos mais lindos e perfeitos que já vi. Ele sorri sem medo, um sorriso forte, mas um sorriso quente, meigo, belo, que alivia qualquer dor no meu peito, mas que ao mesmo tempo me destabiliza.”

Senti-me completamente derretida a ver as fotos.

- Meninos olhem-me esta perfeição, este sorriso faz-me sonhar muito mais do que eu queria. E sabem além de ser lindo, é uma excelente companhia, simpático, divertido, e meu Deus e tem uma “pegada” (como dizem os brasileiros) que eu nunca tinha visto, de me lembrar até me faz corar – e dei uma gargalhada bem alta.

Fiquei horas a admirar as fotos do David, enquanto ia tendo flashes do que já tinha vivido até então na sua companhia, entretanto o Toni já tinha adormecido e a Noa saído do meu quarto.
De repente olhei para o relógio:

“Ai merda, já é tão tarde, distrai-me com as fotos. Vou arrumar as coisas no instantinho e almoçar perto do estúdio onde vou fazer as fotos”.

Passei a tarde toda a fotografar modelos para um catálogo de roupa.
Quando cheguei a casa já passava das nove, tinha a Joana sentada no sofá, impaciente à minha espera.

-Estava a ver que nunca mais chegavas, estou aqui em pulgas – resmungou erguendo-se um pouco no sofá.

-E se arranjasses uma vida? Assim não me melgavas – gozei.

-Anita, vá lá conta please, eu sei que deves ter coisas para contar.

-Já jantaste? E o Mário não está? – Perguntei enquanto fui pousar as minhas coisas ao quarto.

-Sim, mas deixei-te um resto de arroz de pato no forno, ainda deve estar quente. O Mário já saiu, tem uma festa na faculdade.

-Óptimo – respondi-lhe já de volta à sala.

Fui buscar o prato do arroz, coloquei num tabuleiro, juntamente com um copo de água e fui-me sentar no sofá ao lado da Joana.

-Mas o que queres mesmo saber? As melhores amigas são mesmo chatas – disse com um ar descontraído enquanto ia comendo.

-Deixa-te de rodeios, conta como foi o jantar, e como foi o final da noite, pareceu-me que foi animada. Ontem foi um dia muito bom, tens que admitir, passaste o dia todo com aquele Deus dos caracóis - suspirou a Joana.

-Sim, não começou muito bem mas depois o dia foi-se tornando agradável, a noite foi divertida.

-Mas conta lá, nunca mais arrancas.

-Falámos das nossas vidas, depois fomos para o bar, cantámos, dançámos… -fui resumindo a nossa noite à Joana e ela ia-me ouvindo atentamente, sem nunca deixar de dizer a suas piadinhas.

-Falaste do Bernardo? – Questionou-me, timidamente, com medo de me magoar com a pergunta.

-Não ainda não lhe falei no Be, mas já combinámos outro encontro – sorri envergonhada.

-Ai amiga mas tu não perdes tempo, mas estou a adorar essa tua atitude.

-Quero que fique tudo explicado entre nós e neste encontro é para lhe falar do Bernardo. Também vai ser um dia importante para mim –fiz uma pausa e olhei cabisbaixo - espero eu – completei.

-O que estás a preparar?

-Prefiro não dizer, e não insistas porque não conto, espero é que corra bem.

A Joana ficou desconfiada do que se tratava, e como sabia que se tratava de um assunto delicado preferiu não insistir.
Depois retomámos a conversa do jantar com o David, para aliviar a tensão que se havia instalado na sala.

-Ai amiga, embebedaste-o, vais ser multada, se o J.J. sabe.
..
-Mas quem é o J.J.? Conheço o J.B., J.C. mas J.J. não conheço – rimos as duas, apesar de não ligar a futebol tinha percebido que a Joana se referia ao Jorge Jesus - Ele é que bebeu, não obriguei a nada, já é crescidinho.

- Bota crescido nisso – demos ambas uma gargalhada. - Mas houve beijo, não houve? – perguntou malandreca.

Fiz sinal com a cabeça que sim com um grande sorriso estampado na cara.

-Mas não passou disso, mas foi bommmmm – e simulei um desmaio - Não consigo deixar de pensar nele, a minha cabeça anda num turbilhão, David, Bernardo, David, Bernardo.

-Estás a ficar apaixonada – sorriu e abraçou-me.

Senti as lágrimas a quererem sair.

-Então mas não vais chorar.

-É tão estranho querer estar com outro homem sem ser o Bernardo, e o meu envolvimento com o David está a decorrer de uma maneira que eu não estou a controlar.

-Não estás não Anita! –disse a Joana num tom irónico - isso pensas tu. As paixões começam assim - sorriu

-Ai paixões! Do que me falas tu, és doidinha. Com o Be é que foi paixão, decorreu tudo normalmente, tudo no devido tempo, descobri a paixão, o amor, o sexo, a partilha… Mas aprendi tudo de forma romântica e serenamente – sorri ao mesmo tempo que olhava para a estante da sala onde tinha várias fotos do Bernardo e me recordava do dia que tinha conhecido. – Com o David é diferente, é algo mais físico, é tesão, provocação e desejo.

A Joana olhava para mim com um sorriso e ia acenando com a cabeça dando indicações que me entendia.

-Além disso o David só tem 23 anos.

-Ai, desculpas, mas isso não interessa nada, olha eu tenho preferência pelos mais tenrinhos - e deu uma gargalhada. - Essa cabecinha está confusa mas apaixonada.

Olhei para a Joana com cara de má e disse:

-Olha vamos ver um filme.

-Oh amiga não há ninguém melhor que tu para mudar de conversa.



Nota: apesar dos comentários positivos em relação aos capítulos que tenho escritos, estes últimos (incluindo este) não me têm saído totalmente a meu gosto, mas o meu tempo para escrever é mais reduzido desde que as aulas começaram e a imaginação não tem aparecido com frequência :S, mas como tb não gosto de ficar muito tempo sem postar, vou postando os que tenho escrito, mas espero que os próximos me saiam melhor .
Já agora deixou uma palavra de agradecimento pela simpatia a quem tem comentado.

OBRIGADA ;)

encostar na tua

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

"Os Nossos Olhares" 22º Capítulo



O bar entretanto encheu e a festa era mais que muita tal como a confusão, para fazer um pedido tínhamos que nos dirigir ao balcão.

-Vou pedir outra caipirinha, não queres pois não? – perguntei.

-Não, mas deixa-te estar que eu vou lá buscar – ofereceu-se o David.

-Aceito a tua gentileza, não me apetece ir para aquela balbúrdia, e como tu és famoso, pode ser que tenhas atendimento VIP – sorri
.
-Já volto, não fujas.

Enquanto via o David a dirigir-se para o balcão, não pude deixar de relembrar a conversa que havíamos tido há minutos atrás.

“Será que ele está a ser sincero comigo? Ou só disse aquelas baboseiras todas para me levar de novo para a cama. A maior parte dos homens infelizmente é assim” Suspirei. “Mas que soube bem ouvir tudo o que ele disse, soube” – sorri e olhei para o David que ainda estava no balcão à espera que o atendessem, ao ver o meu sorriso (embora não fosse para ele) retribuiu também com um sorriso rasgado.

“Ele é tão querido, o olhar tão meigo, não pode ser um mentiroso e um aproveitador de meninas carentes”. E sorri novamente mas desta vez saiu-me uma pequena gargalhada.

-Estás-te a rir do quê? Espero que não seja de mim – esboçou um sorriso.

O David estava de volta à mesa e já trazia com ele a caipirinha que tanto me estava a apetecer.

-Oh nada de especial. Estava a rir-me de mim mesma. Já me estou a imaginar ali à frente, agarrada ao microfone a cantar uma musiquinha brasileira – disse, divertida.

Menti, não queria que soubesse que estava a pensar nas dúvidas que ele me criava.

-Nãoooo – gritou ele – por favor, tu não podes cantar, vais já acabar com a festa. Não nos tortures com as tuas notas ao lado e com os teus agudos esganiçados – franziu a testa.

-Agudos esganiçados? Agora magoei, como podes ousar em falar assim. Eu sou muito melodiosa a cantar.

Olhámos um para o outro com uma cara séria, mas rapidamente perdemo-nos a rir.

-Deixa-me só beber mais uma caipirinha que vais ver como tenho uma voz harmoniosa e afinada – pisquei o olho - e tu vais-me ajudar, porque afinal vou ter que cantar uma música brasileira e aqui o brasuca és tu.

-Eu canto pior do que tu, nem tentes, não mesmo.

Fui-me inscrever, não tinha muita margem de manobra para escolher a música, era certo que tinha que cantar em brasileiro, o que ainda me faria desafinar mais, mas isso não era importante eu estava ali para me divertir, e só de imaginar a cara do David a ver-me cantar animava-me.

Escolhi uma música da Ivete Zangalo, Sorte Grande. Da lista de canções que me deram, era a música que melhor conhecia, e a letra agradava-me.
Eu e o David começámos entretanto a falar de futebol e eu já ia na segunda caipirinha.

-Tu não gostas de futebol? Como é possível? Todo português gosta de futebol. – perguntava ele incrédulo.

-Percebo pouco, mas também não estou interessada, em alargar os meus horizonte em relação a esse desporto.

-Mas tens clube? És do Benfica… – sorriu.

Ia para responder mas fui interrompida por uma voz ao microfone.

-Ana Margarida é a sua vez, venha animar-nos com a sua voz – o bar aplaudiu.

-Ai agora é que vai ser lindo – gozou o David.

-Pois vai, comigo só pode ser lindo – levantei-me e dirigi-me para o local onde ia cantar.

O David não parava de rir, continuava na mesa enquanto ia bebendo a minha caipirinha.

Lá comecei eu a cantar, sem me sentir minimamente embaraçada, se cantasse mal paciência.

“A minha sorte grande,
Foi você cair do céu,
Minha paixão verdadeira.
Viver a emoção,
Ganhar teu coração,
Pra ser feliz a vida inteira...”
Conforme ia cantando olhava para o David como que a provocá-lo e ele ia fazendo caretas e tapava os ouvidos como que me quisesse mostrar que estava a ser péssima a cantar. insuportável de ouvir.

“É lindo o teu sorriso,
O brilho dos teus olhos,
Meu anjo querubim.”
Ao cantar estas três frases os nossos olhares não se desviaram um só segundo e sorrimos em sintonia, com um sorriso meigo.

“Doce dos teus beijos,
Calor dos teus braços,
Perfume de jasmim...

Chegou no meu espaço,
Mandando no pedaço,
Com o amor que não é brincadeira.

Pegou me deu um laço,
Dançou bem no compasso,”

Nesta altura já todo o bar me acompanhava a cantar, e a dançar. Até o David já se tinha levantado para dar um pezinho de dança.

“De prazer levantou poeira.
Poeira
Poeira
Poeira
Levantou poeira!
Poeira
Poeira
Poeira
Levantou poeira!”

Fui aplaudida e a festa continuou com outro “cantor”.
Quando acabei de cantar passei primeiro pelo balcão para levar caipirinhas para a mesa, consegui perceber que o David bebera o que restava da minha. Decidi levar também para ele, caso ele a recusasse eu bebia sem qualquer esforço.
Quando cheguei à mesa o David recebeu-me com um sorriso de orelha a orelha.

-Muito bem Sra. Cantora, hoje nem desafinou muito. Mas tenho a dizer-te que o teu sotaque brasileiro é péssimo, tenho que te dar umas aulinhas – gozou.

- Né não cara (gozei imitando o sotaque brasileiro), estive muito bem, consegui pôr a sala toda a cantar, mas temos que ir cantar uma música juntos.

-Não, prefiro sambar.

Estávamos a divertirmo-nos, não estávamos a ter conversas complicadas o que me deixava mais descontraída.
Não fomos cantar, mas dançámos muito e fomos sempre bebendo umas caipirinhas, já as suficientes para estarmos um bocadinho embriagados.

-Tu até dás um jeitinho no samba.

-Sou quase profissional de dança, durante muitos anos, pratiquei danças de salão.

-Mas mesmo assim, ainda tens que aprender uns passos de samba aqui com o brasuca.

E sem eu ter tempo de reacção agarrou-me pela cintura e abraçou-me contra o peito dele e eu nem resisti, entreguei-me incondicionalmente e deixei que ele me conduzisse na dança, sentindo uma quente emoção. Os nossos corpos de novo tão próximos.
A respiração dele ao meu ouvido perturbava-me os passos, o perfume dele fazia-me sonhar. Repentinamente parei.

-Vamos embora preciso de ar.

-Mas estás mal disposta? –perguntou, preocupado.

-Um bocadinho indisposta, é que tanto balanço, deixou-me um pouco tonta.

-Sim então vamos embora.

Enquanto saíamos do bar liguei à Joana para me ir buscar, o David insistia que me levava a casa mas eu não queria, vivíamos muito afastados um do outro, não o queria incomodar.

-A Joana já vem a caminho. E tu vais a conduzir?

-Sim, sinto-me bem.

-Vê lá se és apanhado pela policia como o Luisão aqui há uns anos atrás, depois apareces nas noticias por maus motivos - ri e deixei-me cair no areal, não conseguia mais manter-me em pé. Além de estar bêbeda estava completamente exausta de tanto dançar.

-Já que tenho que esperar pela Joana que seja deitada, desculpa, já não me aguento nas pernas, isto é muito pouco elegante da parte de uma mulher, mas que se lixe, não aguento mais.
O David sorriu e fez-me companhia.

-Ao fim de tanto dançarmos sabe bem, é pena o céu não estar estrelado e não conseguirmos ver a lua - disse o David.

Ele rodou o pescoço e olhou para mim. Apercebi-me do olhar dele -

-Ó David, não olhes assim para mim – disse-lhe voltando a cabeça.

-Adoro quando dizes o meu nome – e não deixou de me olhar.

-Olhei para o céu – e tapei o meu rosto com a mão – não olhes assim para mim – voltei a repetir.

-Assim como? – Perguntou, com um sorriso maroto.

-Com essa cara de cafageste - e dei uma gargalhada.

Ele ergueu a cabeça e rodou o corpo ficando com o rosto por cima do meu, fiquei estática, não reagi. Os nossos lábios estavam demasiado próximos. A olhar-me nos olhos sussurrou com um leve sorriso nos lábios.

-Gosto de ti – e beijou-me inesperadamente.

A minha reacção não se fez esperar, mordi-lhe o lábio e gritei.

- Pára – e afastei-o de mim empurrando com as minhas mãos.

-Ai, mordeste-me – levando o seu dedo ao lábio.

-Estou bêbeda, não queiras abusar – e ri-me.

-Que má.

-Aqui não é o sítio certo para beijos e além disso a Joana deve estar a chegar.

Mas o David pareceu que nem me estava a ouvir, agarrou-me e beijou-me de novo, mas desta vez não consegui resistir, correspondi ao beijo, um beijo novamente explosivo mas que foi interrompido pelo meu telemóvel. Afastei-me do David.

-Tenho que atender é a Joana. Sim Jo.

-Ui que voz cansada é essa? – perguntou ironicamente a Joana.

-Estás a chegar? Espero por ti no estacionamento. – não respondi ao que ela me perguntou.

-Sim estou a chegar sua marota, desconversa, desconversa.

Dirigi-me para o estacionamento com o David, e não houve mais nenhuma tentativa de assalto ao beijo.

-Podes dar-me o teu número para combinarmos as coisas para segunda-feira.

-Sim, podes apontar. –e lá fui dizendo o meu número – Olha a Jo chegou.

Despedi-me do David e pedi-lhe que enviasse uma mensagem quando chegasse a casa, queria ter a certeza que tinha chegado bem e não tinha sido apanhado pela policia.
A caminho de casa a Joana não parou com o interrogatório.

-Amiga, hoje não me perguntes nada, amanhã conto-te tudo, prometo. – E encostei-me ao banco do carro a dormitar. Já em casa recebi uma mensagem do David a dizer que tinha chegado a casa e que a viagem correra bem.
Não consegui responder como queria, estava tão cansada que fui o mais breve possível.

-Ainda bem. Beijo










quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ivete Sangalo - Ao Vivo MTV - Sorte Grande (Poeira)

"Os Nossos Olhares" 21º Capítulo

Pagámos a conta e informámos o empregado de mesa que iríamos tomar café no bar. O David ficara mudo de repente, praticamente só me respondia com monossílabos (sim, não, pois …).
Enquanto nos encaminhávamos para o bar não trocámos uma só palavra, sentia que o David ficara distante após aquelas palavras com o fã.
Sentámo-nos numa mesa discreta num canto do bar, a pouca luz que iluminava o espaço fazia-nos sentir menos observados, podíamos estar mais à vontade. Pedimos o café e ficámos quase cinco minutos sem trocar uma palavra, fomos observando as pessoas à nossa volta. O ambiente estava animado, era a festa da caipirinha, o bar estava decorado com motivos do Brasil, nas colunas podíamos ouvir música brasileira, mas nem isso parecia deixar o David mais falador ou animado.

-Uma festa brasileira, nem de propósito, deves estar contente com esta coincidência feliz - tentei quebrar o silêncio que se havia instalado entre nós.

-Sim, é agradável estar num local onde as minhas raízes estão presentes – respondeu distante.

-E parece que vai haver karaoke – disse divertida e num tom entusiástico.

-Pois. – respondeu, a seco.

Como não tinha paciência para birrinhas, e parecia-me que o David estava a fazer uma decidi confrontá-lo.

-Que se passa? Ficaste mudo de repente. Fiz ou disse alguma coisa que te incomodou? – Perguntei, com firmeza.

-Está tudo bem, só estou cansado – desconversou.

-Então se estás cansado vamos embora, não quero que faças fretes – respondi um pouco chateada.

- Não, nada disso, quero aproveitar um pouco mais da noite na tua companhia.

-Então fala comigo, de repente mudaste de atitude, conseguiste deixar-me desconfortável.

-Desculpa estava para aqui a pensar no que não devia – alargou o sorriso e continuou – a noite está a ser muito agradável, gosto de estar contigo.

Sorri satisfeita, parecia que tinha o David de volta à minha companhia.

- Vou pedir uma caipirinha - disse eu. - Também queres?

-Eu não bebo. E tu também não devias beber, tens que levar o carro.

-Se beber mais do que a conta telefono à Joana para me vir buscar.

-Mas se for preciso levo-te a casa …- fez uma pausa e olhou-me com dúvidas - 
 Posso fazer-te uma pergunta?

-Diz.

-A Joana essa tua amiga sabe do que se passou entre nós?

-Sim sabe de tudo, eu vivo com ela, e não consegui disfarçar que não estava bem naquela tarde. Não lhe escondo nada da minha vida, conto-lhe tudo, ela é a minha confidente e companheira nas boas e nas más horas. E tu contaste a alguém? – Perguntei, um pouco com medo da resposta, mas já sabia que ele ia confirmar que tinha contado ao Ruben.

-Mas não contaste a mais ninguém – insistiu.

-Só contei mesmo à Joana. Então e tu a quem disseste?

-Bem … eu contei ao Ruben.

-Já imaginava.

-E ao … Gustavo.

Senti-me a corar, e uma pequena raiva a crescer em mim. Queria que fosse segredo e não lhe bastou ter contado ao Ruben, o Gustavo também teve que saber.

-E à mãezinha e ao paizinho também contaste, ao plantel do Benfica e já agora ao condomínio todo – disse irritada.

O David deu uma gargalhada.

-Calma, são os meus melhores amigos, tinha que contar.

-Então e eles deram-te os parabéns, por mais uma conquista, mais uma parvinha que caiu na tua lábia – continuava zangada – vou-me embora, até já perdi a vontade de beber a caipirinha.

A conversa azedara embora o ambiente à nossa volta estivesse bastante divertido, eu estava fula, mas o que me deixava ainda mais chateada era o ar descontraído do David.
Peguei na minha mala e levantei-me amuada. Mas o David agarrou-me na cintura e não me deixou avançar para fora do bar. Estremeci, as mãos dele tocavam-me de novo, e como era bom sentir aquelas mãos viris a rodearem-me a cintura. Tentei não tremer, não podia permitir que ele percebesse que me deixava completamente arrebatada.

-Não sejas tontinha, senta-te – pediu-me.

Na verdade eu não queria deixar a companhia dele, mas senti-me envergonhada e confusa.

-Não cometemos nenhum crime, e agora sei que nenhuma traição, o que me deixa mais descansado. O que aconteceu entre nós foi um momento lindo e inesquecível muito para além do explicável. Deixa de lado as culpas e os pensamentos menos bons. Entregámo-nos sem pudor à nossa vontade. Adorei estar contigo foste perfeita, explosiva, bela, sensual… Perdi-me completamente no teu sorriso delicioso, no teu corpo perfeito, no teu cheiro, no teu toque atrevido, na tua pele macia, nos teus lábios, ai os teus lábios –sorriu docemente, as palavras dele aceleraram o meu coração – era impossível evitar aquele impulso, a atracção foi mais forte que a razão. Sentimos e cedemos ao desejo.

Estava atenta ao que ele me dizia, seguia atentamente os movimento dos seus apetecíveis lábios, para não perder uma única palavra.

- Só contei ao Ruben e ao Gustavo porque são os meus melhores amigos não lhes escondo nada, e como também perceberam que eu estava estranho insistiram e eu tive que falar, mas sem detalhes –fez um sorriso maroto. - E tu também contaste à Joana, estamos pagos, tiveste azar porque eu tenho dois melhores amigos - e deu de novo uma gargalhada.

Estava hipnotizada pela voz dele, nem queria acreditar no que tinha ouvido, a pulsação continuava a mil era quase audível, estava atordoada pela maneira como ele falou no nosso caloroso encontro. Pensei se estaria a ser ingénua em achar que ele estava a ser sincero, mas na verdade o que antes me parecera mau, ao fim de ouvir o discurso dele parecia-me belo e excitante.

“Estou armada em virgem ofendida, estou a ser ridícula, já não sou nenhuma miúda, e a culpada do que aconteceu até foi minha”. – e sorri timidamente.

-Um sorriso … será a bandeira branca. Paz? –

-Estou a ser ridícula. Vamos esquecer essa história.

-Não quero esquecer, nunca.

Agradou-me da forma como o David falou, fez-me sentir bem, desejável. Senti que ainda havia muito para viver naquela noite.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

"Os Nossos Olhares" 20º Capítulo

Entrei descontraída no carro, sentia-me bem, em paz. Pensei enquanto conduzia a caminho da Arrábida, o quanto me apetecia estar com o David, ouvir a voz dele, sentir o cheiro dele, perder-me no seu sorriso, admirar os caracóis (que tanta graça lhe davam) e concentrar-me no seu olhar envolvente. Ao pensar no David a expressão do meu rosto tornava-se serena, o sorriso nos meus lábios era inevitável.

“Como é possível que alguém que me deixava à beira de um ataque de raiva, agora me deixa com um sorriso parvo na cara. De manhã não o queria enfrentar e agora à noite venho a correr ter com ele”.

Mas repentinamente fui invadida por uma insegurança.
Apenas tinha tido dois namorados, um na adolescência e o namoro com o Bernardo (de sete anos), portanto a minha experiência em encontros supostamente românticos era praticamente nula. Senti um nervoso miudinho, que há minutos atrás estava longe de sentir.

“Ai, será que vou conseguir estar à vontade, não vou ser trapalhona? Não sei bem como me hei-de comportar. Mas vai correr bem, o sorriso do David vai acalmar-me.”

Antes de chegar ao restaurante imaginei mil e um cenários na minha cabeça. Desde que ia correr muito bem, até acabarmos o jantar a discutir. Pensei também no Bernardo, não sei se ele aprovaria este meu encontro, mas sentia que tinha luz verde para avançar, tinha que seguir com a minha vida para a frente e com certeza que o Bernardo sabia o quanto eu sofria com a sua ausência.

“Que filmes que já vão na tua cabeça Ana Margarida. Vai correr bem, tem tudo para correr bem, afinal é só um jantar para nos conhecermos melhor e acabar com os mal entendidos. Vou passar um serão agradável, o David com aquele sorrisão só pode ser boa companhia”. -Pensei.

Quando cheguei ao Portinho da Arrábida já o David estava na praia à minha espera.

“Ainda bem que vim assim vestida, ele está super desportivo com t-shirt, calça de ganga e ténis. Assim ficamos melhor um ao lado do outro” – sorri e respirei fundo.

-Já vens a sorrir? É bom sinal, – sorriu - gosto desse sorriso por dois motivos.

-Ai sim?

-Passo a explicar, primeiro porque é sinal que gostaste de me ver, e depois porque tens um sorriso encantador.

-Ah obrigada – disse um pouco sem graça.

-É verdade, tens um sorriso lindo e não precisas corar. – afirmou sereno.

“Respira fundo” –  tentei descontrair.

-Estás linda. Estava na expectativa que viesses com aquele vestido bonitinho da discoteca, mas esses calções também te assentam muito bem – disse percorrendo-me com o olhar e com um sorriso atrevido.

-Não comeces já com piadinhas, bastaram as do Carlos hoje à tarde.

-Ele percebeu a química entre nós – disse o David divertido.

-Vamos entrar – desconversei, o calor não desaparecia do meu rosto.

-Sim vamos, já temos mesa reservada e como imagino que adoras o mar, pedi uma mesa ao lado da parede envidraçada para desfrutares o mais possível do nosso jantar. Olhas para o lado vês o mar, e olhas para a tua frente e vês-me a mim. – E deu uma gargalhada.

-Provocam-me sensações contrárias, o mar acalma-me e tu destabilizas-me. – ri.

O David franziu a sobrancelha mas não deixou de responder:

-Mas às vezes destabilizar nem sempre é mau. A partir de hoje quero ser como um mar para ti – e sorriu docemente.

Também não consegui deixar de esboçar um sorriso.
Entretanto entrámos no restaurante, era uma sala com uma decoração descontraída, a música criava um ambiente acolhedor, a luz era ténue o que retratava um certo romantismo.
Aproximou-se o empregado e fizemos o pedido.
A noite tinha começado bem, ainda com algumas piadas por parte do David mas que eu consegui achar graça.
Não podia deixar de contemplar aquele homem que tinha à minha frente, parecia-me quase perfeito.

-Mas diz-me, não corro o risco de ser surpreendido pelo teu marido e a tua filha, pois não? – Atreveu-se a perguntar-me.

-David, não sejas assim, aquele homem e aquela menina linda que viste no zoo eram o meu irmão e a minha sobrinha – expliquei-lhe como que a pedir desculpa.

-Quando te vi com eles, apeteceu-me contar tudo o que se tinha passado entre nós, detesto infidelidades. Quando me disseste que namoravas eu fiquei desapontado contigo, mas quando te vi no zoo fiquei desolado pensei que afinal eras casada e tinhas uma filha, era pior do que eu imaginava.

-Não sabia que ainda há homens/rapazes que pensam assim. Achava que lhes bastava dar uma queca, o resto não é importante. – disse ironicamente.

-Assim até me insultas, eu não sou assim, preservo muito a família, portanto não gosto de traições, sejam elas quais forem. - Respondeu-me muito sério.

-Desculpa. Entendo, foi muito mau da minha parte –desculpei-me timidamente – mas queres já começar com esta conversa?

-Sim, para acabarmos com o assunto já aqui.

-Ok. Então pergunta o que quiseres. – disse com firmeza.

A conversa entre nós tornara-se séria.

-Porque me mentiste?

-Porque me arrependi de ter ido para a cama contigo.

-Ui, essa custou a ouvir, não estava à espera dessa resposta. Foi assim tão mau?

Hesitei na resposta, eu queria dizer só a verdade naquela noite.

-Arrependi-me porque não costumo ir para a cama com homens que mal conheço, fui fraca, não resisti ao impulso. Além disso foi óptimo, o que me fez sentir mal.

-Óptimo! E fez-te sentir mal? Não entendo. Quando é óptimo normalmente sentimo-nos nas nuvens – disse baralhado.

-É mais difícil de explicar do que parece, um dia conto.

-Mas eu gostava de ouvir hoje. – insistiu.

-Se eu contar agora, a nossa noite vai ficar triste, e não é isso que pretendo. Aviso desde já que se contar vai haver lágrimas. Mas acredita que gostei muito de ter estado contigo.

-Então se vai ter lágrimas não quero, eu hoje só quero sorrisos, só alegria. Acredito que gostaste de estar comigo, porque eu adorei estar contigo. – sorri e fez-me uma festa ao de leve no rosto e rimos com cumplicidade – Mas quando é que me podes contar? Deixaste-me curioso.

- Quando é que tens uma manhã ou uma tarde de folga, para te encontrares comigo?  Estou aqui a ter uma ideia... hum... Mas aviso já que não podes ter nenhum jogo no dia seguinte, é que tenho um desafio para ti que te pode deixar com pequenas mazelas.

-Não gosto de violência, vai doer? – Perguntou com um ar sério mas deu para perceber que estava a gozar.

-Eu acho que tu vais gostar – esbocei um sorriso maroto.

-Como quero que me contes, marcamos para segunda à tarde, se der para ti. Se posso ficar com mazelas é melhor que seja depois do jogo de domingo com o Sporting. – sorriu – mas posso confiar em ti? Para onde me vais levar? – perguntou cheio de curiosidade.

-Podes confiar, mas é segredo depois no dia vês, mas se tiveres medo não te obrigo – dei uma gargalhada.

-Eu não tenho medo de nada, nem de trovoada – demos uma gargalhada – nunca gostei tanto de trovoada como naquele dia – piscou-me o olho.

Senti-me de novo a corar.
Entretanto fomos interrompidos pelo empregado com a comida.

-Não sejas parvo vamos comer que estás tudo com um aspecto delicioso.

A noite estava a ser bastante agradável, o David não me estava a pressionar para falar no que não me fazia sentir bem, o que era óptimo. Já tínhamos falado de imensas coisas, mas ainda havia muito mais para contar.

- Então fala-me um pouco de ti. É mesmo verdade que além de fotografa também és psicóloga?

-Sim é meia verdade, eu sou fotografa não sou psicóloga, só tirei o curso por pressão dos meus pais. O canudo está bem guardado, em curto, médio prazo não pretendo exercer, mas nunca se sabe o que o futuro nos reserva. Mas a fotografia neste momento preenche-me profissionalmente.

- Eu gosto muito de fotografias, nelas posso combater a saudade. Recordo a ausência, a separação dos que amo, as pessoas que já faleceram, as que desapareceram do meu dia a dia. Faz-me reviver, momentos, pessoas, lugares, as alegrias… Os acontecimentos terminam mas fotografias permanecem.

-Adorei a tua descrição, é mesmo isso. Desde pequenina que adoro fotografar e por conseguinte fotografias. A fotografia mostra-me muito mais daquilo do que se vê. Em alguns ensaios fotográficos consigo fazer com que a pessoa fotografada encontre uma emoção, que nunca tenha sentido e isso dá-me imensa satisfação. A fotografia é capaz de agredir, de emocionar ou encorajar uma pessoa. – fiz uma pausa – para mim fotografia é arte. Mas vou-me calar, senão dou-te seca, e não saboreias como deve ser esta comida maravilhosa.

O David estava ouvir-me com um sorriso enorme e luminoso.

-Nada disso, não sejas tontinha, estava a adorar ouvir a tua discrição, falas do teu trabalho com imensa paixão.

-Sim com paixão mesmo. Mas fala-me também um pouco de ti?

-Não vale a pena – disse com um ar serio.

-Então porquê?

-Tu já sabes tudo, viste a minha entrevista para o Alta definição.

-Sim é verdade – rimos os dois – e deixa dizer-te que adorei as tuas respostas, tão novinho e com respostas tão bem estruturadas, fiquei tua fã – pisquei-lhe o olho.

-Não sou assim tão novinho tenho 23 anos, não gozes, está bem ou Sra. adulta?

-Hoje não nos vamos agredir, ok? –  disse com firmeza mas num tom de brincadeira.

-OK. – o David olhou para mim fez uma pausa, esboço um sorriso e continuou.

-Sabes, a história da paparazzi…

-Esquece isso por favor, envergonha-me – interrompi-o.

- Tenho que lembrar, é importante. Na altura que vi as fotos publicadas fiquei furioso contigo, mas se não fossem essas fotos se calhar não nos teríamos conhecido.

-Tínhamos sim, não queiras ser romântico - ri-me –Mais cedo ou mais tarde ia fotografar-te, não me ias escapar – disse em tom de piada para não me sentir constrangida naquele momento.

Rimos os dois mas o David continuou.

- Até ao dia em que te “dei molha” com o carro, via-te como persona non grata, mas a partir dessa noite pensei que não podia ser inimigo de uma mulher linda como tu, estavas lindíssima com aquele vestido.

-Estás a ser irónico.

-Não estou não, adorei ver-te de vestido.

-David engate hoje não – rimos os dois.

-Só perdeste um pouco de encanto quando cantaste – e deu uma gargalhada bem alta – mas de resto estavas perfeita. E adorei saber que eras tu que ias fotografar o Calendário para a Mística.

Eu olhava timidamente para ele mas embevecida, estava sem palavras.
Fomos entretanto interrompidos por um fã mais atrevido.

-David pode dar-me um autógrafo?

O David disse-lhe logo que sim. Mas o rapaz não tirava os olhos de mim. Ao ouvir o David chamar-me Ana ele disse:

- Eu conheço-a.

-Pois se calhar é provável –respondi, tristemente, percebi logo porque me conhecia.

-Sim, conheço é a namorada do Bernardo – disse rapaz satisfeito.

-Sim era.

-Sinto muito o que aconteceu.

-Obrigada. – respondi estando já a sentir-me incomodada.

-Tira uma foto comigo?

-Sim, com certeza – tentei ser gentil.

Tirei a foto com o rapaz com um sorriso um pouco forçado, aquela situação deixou-me desconfortável. O rapaz agradeceu e afastou-se de nós.
O David perguntou logo.

-Então és famosa e não me disseste?

-Já fui, mas só para um grupo muito restrito de pessoas.

-Mas não é como fotografa pois não?

-Não, mas segunda conto-te.

-Mas o Bernardo já não existe na tua vida?

-Existe mas não como tu estás a pensar. Mas vamos mudar  de assunto, depois … vais saber tudo prometo.

O David acenou que sim, mas senti-o um pouco desapontado.

-Olha, acho que vem uma musiquinha animada ali do bar do restaurante, se calhar há uma festa, vamos até lá? – tentei acabar com o desconforto que se havia instalado entre nós.

Lily Allen - 22 HD

domingo, 19 de setembro de 2010

"O Olhar do Futuro" 19º Capítulo

Senti que me tinha saído um grande peso de cima dos ombros, não sabia se ele tinha ficado convencido que era solteira, mas não interessava, já tinha desfeito o mal entendido.

-Então, vamos lá iniciar o trabalho. Pode começar a fazer o strip David – disse o Carlos em jeito de graçola. Todos riram menos eu e o David.

Apesar de eu ter revelado que lhe havia mentido o ambiente entre nós continuava pesado, ele olhava para mim com cara de desconfiado.
Eu já não tinha que dar indicações apenas fotografava os movimentos dele, agora à frente da cena estava o Carlos, que pedia insistentemente ao David para fazer uma cara mais alegre.

-Não tenha vergonha de se despir, estamos entre homens, com a excepção de bela Ana como é óbvio, mas farta de ver isso está ela, e com certeza que vai apreciar os abdominais do David – riram todos.
Senti-me tão envergonhada.
“F****** passou-se, ó que palerma, pensa que está a falar de quem “. Pensei furiosa.
Deitei os olhos ao chão e respirei fundo a conter-me para não ser mal-educada.

- O Sr. David não está mal servido não Sr. – e ri com um sorriso cínico.

Olhei para o Ruben, ele fez-me sinal para não ligar.
O David não dizia nada, era como se  não tivéssemos a falar dele, estava com ar apático, o que provocou a repetição de algumas cenas.
Mas o Carlos continuava com as piadinhas.

-A Ana já pensou em fazer umas fotos como modelo, ficava muito bem de biquíni ao lado do nosso amigo David.
Senti-me a corar.
“Não estou a perceber este gajo, sempre com boquitas e mal me conhece”.

-Não. Eu sou mesmo boa é do lado de cá da máquina - respondi-lhe mas desta vez não houve sorriso nem sequer olhei para ele.

Continuava concentrada no David, ele estava perfeito.
“Ele é tão lindo, e fica fofinho com os caracóis molhados. Era humanamente impossível ter-lhe resistido naquele tarde” – pensava. Esbocei um pequeno sorriso.
 “Ai que assim o meu coraçãozinho não aguenta, esta visão é divinal”.

-Estás mais bem disposta, até já sorris – apercebeu-se o Ruben.

-É verdade, estou a gostar de ver o teu amigo a tentar surfar sem ondas, parece um pouco perdido – e dei uma gargalhada.

-Não sejas mazinha, tu até não te importavas de lhe ir dar uma ajuda – gozou o Ruben.

-Até tu Ruben, com bocas, pensei que simpatizavas comigo – rimos os dois.

Aproximei-me mais do David, de maneira a ter o melhor plano da saida dele da água. Ao vê-lo sair em tronco nu daquelas águas límpidas e azuladas, deixou-me a pulsação a mil, aquele corpo molhado e bem definido, com a pele levemente bronzeada era de perder o fôlego.
“Mas porque ele é tão … “ – fui abruptamente interrompida pelo Carlos.

-Ana, afaste-se que agora queremos filmar com um plano mais aberto, não o queira só para si.

“Filho da mãe. Já me estou a passar”. E se metesses as piadinhas no C*”- pensei eu já fula.

-É todo vosso -  Respondi enquanto me afastava.

Todos se divertiam com as bocas do Carlos, desta vez até o Ruben se riu.
A sessão finalmente estava terminada, talvez pudesse esclarecer finalmente o “assunto namorado” com o David.
Fui ao encontro dele e perguntei-lhe:

-Queres ver as fotos? – aproximando a máquina dele.

Afastou-me a máquina e perguntou-me:

-Não namoras mesmo? - não podia ter sido mais directo.

Acenei que não com a cabeça.

-Não mesmo ?– insistiu.

-Não namoro mesmo – respondi, timidamente e ligeiramente envergonhada.

-Não me mintas. – Pediu, ele.

-Não estou a mentir, juro que é verdade - cruzei os dedos e beijei-os

-Então porque me mentiste naquele dia?

Eu ia para lhe responder mas ele interrompeu-me.

-Espera … já acreditei que não namoras… aceitas jantar comigo hoje à noite naquele restaurante? – apontando para edifício - assim podes explicar-me qual o motivo por que mentiste e fugiste.

Torci um bocadinho o nariz, como dando a entender que não ia aceitar.
Mas a minha resposta foi sim, com um grande sorriso, mas ressalvei que queria um jantar sem picardias.
Não pensei se estava a fazer o correcto, parecia que havia uma força maior a dizer para aceitar. Respondi o que me apetecia e sentia, e a minha vontade era estar com ele e ir aquele jantar. O final da tarde até correu bem e eu sentia que lhe devia uma explicação.
Ainda fomos fotografar a Lisboa mas correu tudo como planeado e foi rápido.
Combinámos a hora do jantar e fui para casa.
Mal entrei no apartamento dei de caras com Joana.

-Que sorrisinho parvo é esse, amiga?

-Nota-se assim tanto? – Perguntei, sem perder o sorriso parvo do rosto.

Toda a minha expressão corporal era alegria, estava eufórica, não parava quieta, não conseguia parar de sorrir.
Contei à Joana como tinha corrido a sessão. Desde a primeira discussão até às piadinhas do Carlos (que a Joana adorou).

- … e então ele convidou-me para jantar lá no restaurante do Portinho da Arrábida – e fiz um sorriso de orelha a orelha.

- Uau! Uau! Uau! Que bom Anita, e aquele restaurante é perfeito, com aquela paisagem nocturna – piscou-me o olho. -Vai haver faísca de novo entre vocês – e sorriu.

-Não, eu só quero ficar de bem com ele, e depois amigos ... talvez…

-Mas amigos coloridos daqueles que só dão umas quecas de vez enquanto – disse a Joana dando uma gargalhada altíssima – não podes deixar escapar aquele monumento.

Fiz uma cara séria, como que chateada mas não aguentei, dei uma gargalhada tão ou mais alta do que a da Joana.

-Ó Jo não me importava, mas já sabes como sou, eu sou certinha, há terceira já estava perdidamente apaixonada, e não quero isso. Paixões ainda não são para mim.  

-Pois certinha, não foi isso que vi esta semana, e quero que te apaixones muito rápido.

-Vai com calma, até porque o David deve ter carradas de meninas atrás dele, que querem ser amigas coloridas. Imagina a quantidade de modelos que o devem rodear. Jogador de futebol que é jogador de futebol anda sempre com uma modelo e quase sempre loira – e ri-me bem disposta – se calhar tinhas mais sorte que eu Jo, és loira – galhofa total.

-Mas tu não ficas nada atrás das modelos és bem “boua”- rimos - Mas, estás feliz com o convite? Isso é que é importante - perguntou a Joana.

-Feliz não estou, mas deixou-me muito bem disposta, assim vou poder esclarecer tudo, não quero mais desentendimentos nem palavras desagradáveis entre nós, quero dar-me bem com ele.

-Já sabes o que vais vestir? – perguntou curiosa -  Um vestidinho bem curto, certo? Um bocadinho provocante, com um decote fantástico – piscou-me o olho.

-Jo Jo, eu não vou para o engate, vou jantar a um local bem descontraído. Vou com umas calças de ganga e uma blusa, está mais que bem.

-Não vou deixar que vás assim tão insossa.

-Não sejas melga.

-Leva pelo menos uns calções e um top.

-Chata! Pode ser – já não aguentava as insistências dela.

Fui tomar banho e lá aceitei a roupa que a Joana me tinha escolhido, mas recusei os saltos altos.

-Vou de sandálias rasteiras, e não reclames, já deste a tua opinião  – disse eu.

-Ok ok amiga, mas só mais uma coisinha, põe um rímel para destacar essas tuas pestanas enormes, para o teu olhar ficar ainda mais bonito, para o David ficar fixado nesses teus olhos lindíssimos.

-Pára Jo, chatinha, a saída é minha e vou como me sinto melhor.

Vesti uns calções brancos acima do joelho e vesti um top verde de alça larga com um pequeno decote redondo. Fiz uma trança lateral coloquei umas pulseiras e um relógio e calcei as sandálias que eu queria.

-Estou pronta.

-Se fosses de vestido e de saltos ias arrasar, mas … -fez um sorriso maroto - do rímel não te escapas – a Joana tirou-o de trás das costas e veio direita a mim para mo pôr.

 Acabei por ceder, eu não gostava muito de me maquilhar mas adorava rímel.

-Agora estás pronta. Estás bem, mas podias estar melhor – respondeu com um ar desiludido mas provocador.

-Joana não me canses a beleza, estou mais que bem, não vou para nenhum casamento nem jantar de gala e além disso o restaurante é bastante simples.

-Tu lá sabes. Boa sorte amiga, vai lá conquistar o Deus dos caracóis. E vive, vive muito – gritou alegremente a Joana.