Entrei descontraída no carro, sentia-me bem, em paz. Pensei enquanto conduzia a caminho da Arrábida, o quanto me apetecia estar com o David, ouvir a voz dele, sentir o cheiro dele, perder-me no seu sorriso, admirar os caracóis (que tanta graça lhe davam) e concentrar-me no seu olhar envolvente. Ao pensar no David a expressão do meu rosto tornava-se serena, o sorriso nos meus lábios era inevitável.
“Como é possível que alguém que me deixava à beira de um ataque de raiva, agora me deixa com um sorriso parvo na cara. De manhã não o queria enfrentar e agora à noite venho a correr ter com ele”.
Mas repentinamente fui invadida por uma insegurança.
Apenas tinha tido dois namorados, um na adolescência e o namoro com o Bernardo (de sete anos), portanto a minha experiência em encontros supostamente românticos era praticamente nula. Senti um nervoso miudinho, que há minutos atrás estava longe de sentir.
“Ai, será que vou conseguir estar à vontade, não vou ser trapalhona? Não sei bem como me hei-de comportar. Mas vai correr bem, o sorriso do David vai acalmar-me.”
Antes de chegar ao restaurante imaginei mil e um cenários na minha cabeça. Desde que ia correr muito bem, até acabarmos o jantar a discutir. Pensei também no Bernardo, não sei se ele aprovaria este meu encontro, mas sentia que tinha luz verde para avançar, tinha que seguir com a minha vida para a frente e com certeza que o Bernardo sabia o quanto eu sofria com a sua ausência.
“Que filmes que já vão na tua cabeça Ana Margarida. Vai correr bem, tem tudo para correr bem, afinal é só um jantar para nos conhecermos melhor e acabar com os mal entendidos. Vou passar um serão agradável, o David com aquele sorrisão só pode ser boa companhia”. -Pensei.
Quando cheguei ao Portinho da Arrábida já o David estava na praia à minha espera.
“Ainda bem que vim assim vestida, ele está super desportivo com t-shirt, calça de ganga e ténis. Assim ficamos melhor um ao lado do outro” – sorri e respirei fundo.
-Já vens a sorrir? É bom sinal, – sorriu - gosto desse sorriso por dois motivos.
-Ai sim?
-Passo a explicar, primeiro porque é sinal que gostaste de me ver, e depois porque tens um sorriso encantador.
-Ah obrigada – disse um pouco sem graça.
-É verdade, tens um sorriso lindo e não precisas corar. – afirmou sereno.
“Respira fundo” – tentei descontrair.
-Estás linda. Estava na expectativa que viesses com aquele vestido bonitinho da discoteca, mas esses calções também te assentam muito bem – disse percorrendo-me com o olhar e com um sorriso atrevido.
-Não comeces já com piadinhas, bastaram as do Carlos hoje à tarde.
-Ele percebeu a química entre nós – disse o David divertido.
-Vamos entrar – desconversei, o calor não desaparecia do meu rosto.
-Sim vamos, já temos mesa reservada e como imagino que adoras o mar, pedi uma mesa ao lado da parede envidraçada para desfrutares o mais possível do nosso jantar. Olhas para o lado vês o mar, e olhas para a tua frente e vês-me a mim. – E deu uma gargalhada.
-Provocam-me sensações contrárias, o mar acalma-me e tu destabilizas-me. – ri.
O David franziu a sobrancelha mas não deixou de responder:
-Mas às vezes destabilizar nem sempre é mau. A partir de hoje quero ser como um mar para ti – e sorriu docemente.
Também não consegui deixar de esboçar um sorriso.
Entretanto entrámos no restaurante, era uma sala com uma decoração descontraída, a música criava um ambiente acolhedor, a luz era ténue o que retratava um certo romantismo.
Aproximou-se o empregado e fizemos o pedido.
A noite tinha começado bem, ainda com algumas piadas por parte do David mas que eu consegui achar graça.
Não podia deixar de contemplar aquele homem que tinha à minha frente, parecia-me quase perfeito.
-Mas diz-me, não corro o risco de ser surpreendido pelo teu marido e a tua filha, pois não? – Atreveu-se a perguntar-me.
-David, não sejas assim, aquele homem e aquela menina linda que viste no zoo eram o meu irmão e a minha sobrinha – expliquei-lhe como que a pedir desculpa.
-Quando te vi com eles, apeteceu-me contar tudo o que se tinha passado entre nós, detesto infidelidades. Quando me disseste que namoravas eu fiquei desapontado contigo, mas quando te vi no zoo fiquei desolado pensei que afinal eras casada e tinhas uma filha, era pior do que eu imaginava.
-Não sabia que ainda há homens/rapazes que pensam assim. Achava que lhes bastava dar uma queca, o resto não é importante. – disse ironicamente.
-Assim até me insultas, eu não sou assim, preservo muito a família, portanto não gosto de traições, sejam elas quais forem. - Respondeu-me muito sério.
-Desculpa. Entendo, foi muito mau da minha parte –desculpei-me timidamente – mas queres já começar com esta conversa?
-Sim, para acabarmos com o assunto já aqui.
-Ok. Então pergunta o que quiseres. – disse com firmeza.
A conversa entre nós tornara-se séria.
-Porque me mentiste?
-Porque me arrependi de ter ido para a cama contigo.
-Ui, essa custou a ouvir, não estava à espera dessa resposta. Foi assim tão mau?
Hesitei na resposta, eu queria dizer só a verdade naquela noite.
-Arrependi-me porque não costumo ir para a cama com homens que mal conheço, fui fraca, não resisti ao impulso. Além disso foi óptimo, o que me fez sentir mal.
-Óptimo! E fez-te sentir mal? Não entendo. Quando é óptimo normalmente sentimo-nos nas nuvens – disse baralhado.
-É mais difícil de explicar do que parece, um dia conto.
-Mas eu gostava de ouvir hoje. – insistiu.
-Se eu contar agora, a nossa noite vai ficar triste, e não é isso que pretendo. Aviso desde já que se contar vai haver lágrimas. Mas acredita que gostei muito de ter estado contigo.
-Então se vai ter lágrimas não quero, eu hoje só quero sorrisos, só alegria. Acredito que gostaste de estar comigo, porque eu adorei estar contigo. – sorri e fez-me uma festa ao de leve no rosto e rimos com cumplicidade – Mas quando é que me podes contar? Deixaste-me curioso.
- Quando é que tens uma manhã ou uma tarde de folga, para te encontrares comigo? Estou aqui a ter uma ideia... hum... Mas aviso já que não podes ter nenhum jogo no dia seguinte, é que tenho um desafio para ti que te pode deixar com pequenas mazelas.
-Não gosto de violência, vai doer? – Perguntou com um ar sério mas deu para perceber que estava a gozar.
-Eu acho que tu vais gostar – esbocei um sorriso maroto.
-Como quero que me contes, marcamos para segunda à tarde, se der para ti. Se posso ficar com mazelas é melhor que seja depois do jogo de domingo com o Sporting. – sorriu – mas posso confiar em ti? Para onde me vais levar? – perguntou cheio de curiosidade.
-Podes confiar, mas é segredo depois no dia vês, mas se tiveres medo não te obrigo – dei uma gargalhada.
-Eu não tenho medo de nada, nem de trovoada – demos uma gargalhada – nunca gostei tanto de trovoada como naquele dia – piscou-me o olho.
Senti-me de novo a corar.
Entretanto fomos interrompidos pelo empregado com a comida.
-Não sejas parvo vamos comer que estás tudo com um aspecto delicioso.
A noite estava a ser bastante agradável, o David não me estava a pressionar para falar no que não me fazia sentir bem, o que era óptimo. Já tínhamos falado de imensas coisas, mas ainda havia muito mais para contar.
- Então fala-me um pouco de ti. É mesmo verdade que além de fotografa também és psicóloga?
-Sim é meia verdade, eu sou fotografa não sou psicóloga, só tirei o curso por pressão dos meus pais. O canudo está bem guardado, em curto, médio prazo não pretendo exercer, mas nunca se sabe o que o futuro nos reserva. Mas a fotografia neste momento preenche-me profissionalmente.
- Eu gosto muito de fotografias, nelas posso combater a saudade. Recordo a ausência, a separação dos que amo, as pessoas que já faleceram, as que desapareceram do meu dia a dia. Faz-me reviver, momentos, pessoas, lugares, as alegrias… Os acontecimentos terminam mas fotografias permanecem.
-Adorei a tua descrição, é mesmo isso. Desde pequenina que adoro fotografar e por conseguinte fotografias. A fotografia mostra-me muito mais daquilo do que se vê. Em alguns ensaios fotográficos consigo fazer com que a pessoa fotografada encontre uma emoção, que nunca tenha sentido e isso dá-me imensa satisfação. A fotografia é capaz de agredir, de emocionar ou encorajar uma pessoa. – fiz uma pausa – para mim fotografia é arte. Mas vou-me calar, senão dou-te seca, e não saboreias como deve ser esta comida maravilhosa.
O David estava ouvir-me com um sorriso enorme e luminoso.
-Nada disso, não sejas tontinha, estava a adorar ouvir a tua discrição, falas do teu trabalho com imensa paixão.
-Sim com paixão mesmo. Mas fala-me também um pouco de ti?
-Não vale a pena – disse com um ar serio.
-Então porquê?
-Tu já sabes tudo, viste a minha entrevista para o Alta definição.
-Sim é verdade – rimos os dois – e deixa dizer-te que adorei as tuas respostas, tão novinho e com respostas tão bem estruturadas, fiquei tua fã – pisquei-lhe o olho.
-Não sou assim tão novinho tenho 23 anos, não gozes, está bem ou Sra. adulta?
-Hoje não nos vamos agredir, ok? – disse com firmeza mas num tom de brincadeira.
-OK. – o David olhou para mim fez uma pausa, esboço um sorriso e continuou.
-Sabes, a história da paparazzi…
-Esquece isso por favor, envergonha-me – interrompi-o.
- Tenho que lembrar, é importante. Na altura que vi as fotos publicadas fiquei furioso contigo, mas se não fossem essas fotos se calhar não nos teríamos conhecido.
-Tínhamos sim, não queiras ser romântico - ri-me –Mais cedo ou mais tarde ia fotografar-te, não me ias escapar – disse em tom de piada para não me sentir constrangida naquele momento.
Rimos os dois mas o David continuou.
- Até ao dia em que te “dei molha” com o carro, via-te como persona non grata, mas a partir dessa noite pensei que não podia ser inimigo de uma mulher linda como tu, estavas lindíssima com aquele vestido.
-Estás a ser irónico.
-Não estou não, adorei ver-te de vestido.
-David engate hoje não – rimos os dois.
-Só perdeste um pouco de encanto quando cantaste – e deu uma gargalhada bem alta – mas de resto estavas perfeita. E adorei saber que eras tu que ias fotografar o Calendário para a Mística.
Eu olhava timidamente para ele mas embevecida, estava sem palavras.
Fomos entretanto interrompidos por um fã mais atrevido.
-David pode dar-me um autógrafo?
O David disse-lhe logo que sim. Mas o rapaz não tirava os olhos de mim. Ao ouvir o David chamar-me Ana ele disse:
- Eu conheço-a.
-Pois se calhar é provável –respondi, tristemente, percebi logo porque me conhecia.
-Sim, conheço é a namorada do Bernardo – disse rapaz satisfeito.
-Sim era.
-Sinto muito o que aconteceu.
-Obrigada. – respondi estando já a sentir-me incomodada.
-Tira uma foto comigo?
-Sim, com certeza – tentei ser gentil.
Tirei a foto com o rapaz com um sorriso um pouco forçado, aquela situação deixou-me desconfortável. O rapaz agradeceu e afastou-se de nós.
O David perguntou logo.
-Então és famosa e não me disseste?
-Já fui, mas só para um grupo muito restrito de pessoas.
-Mas não é como fotografa pois não?
-Não, mas segunda conto-te.
-Mas o Bernardo já não existe na tua vida?
-Existe mas não como tu estás a pensar. Mas vamos mudar de assunto, depois … vais saber tudo prometo.
O David acenou que sim, mas senti-o um pouco desapontado.
-Olha, acho que vem uma musiquinha animada ali do bar do restaurante, se calhar há uma festa, vamos até lá? – tentei acabar com o desconforto que se havia instalado entre nós.
Lindo, eu adoro esta história. Aquele romantismo, o mistério, a paixão que escondem..tudo.
ResponderEliminarMarisa
Amei, eu adoro a tua historia mesmo!
ResponderEliminarAi que queridos :D
ResponderEliminarOh adorei!
Amei!
ResponderEliminarPublica mais!