terça-feira, 21 de setembro de 2010

"Os Nossos Olhares" 20º Capítulo

Entrei descontraída no carro, sentia-me bem, em paz. Pensei enquanto conduzia a caminho da Arrábida, o quanto me apetecia estar com o David, ouvir a voz dele, sentir o cheiro dele, perder-me no seu sorriso, admirar os caracóis (que tanta graça lhe davam) e concentrar-me no seu olhar envolvente. Ao pensar no David a expressão do meu rosto tornava-se serena, o sorriso nos meus lábios era inevitável.

“Como é possível que alguém que me deixava à beira de um ataque de raiva, agora me deixa com um sorriso parvo na cara. De manhã não o queria enfrentar e agora à noite venho a correr ter com ele”.

Mas repentinamente fui invadida por uma insegurança.
Apenas tinha tido dois namorados, um na adolescência e o namoro com o Bernardo (de sete anos), portanto a minha experiência em encontros supostamente românticos era praticamente nula. Senti um nervoso miudinho, que há minutos atrás estava longe de sentir.

“Ai, será que vou conseguir estar à vontade, não vou ser trapalhona? Não sei bem como me hei-de comportar. Mas vai correr bem, o sorriso do David vai acalmar-me.”

Antes de chegar ao restaurante imaginei mil e um cenários na minha cabeça. Desde que ia correr muito bem, até acabarmos o jantar a discutir. Pensei também no Bernardo, não sei se ele aprovaria este meu encontro, mas sentia que tinha luz verde para avançar, tinha que seguir com a minha vida para a frente e com certeza que o Bernardo sabia o quanto eu sofria com a sua ausência.

“Que filmes que já vão na tua cabeça Ana Margarida. Vai correr bem, tem tudo para correr bem, afinal é só um jantar para nos conhecermos melhor e acabar com os mal entendidos. Vou passar um serão agradável, o David com aquele sorrisão só pode ser boa companhia”. -Pensei.

Quando cheguei ao Portinho da Arrábida já o David estava na praia à minha espera.

“Ainda bem que vim assim vestida, ele está super desportivo com t-shirt, calça de ganga e ténis. Assim ficamos melhor um ao lado do outro” – sorri e respirei fundo.

-Já vens a sorrir? É bom sinal, – sorriu - gosto desse sorriso por dois motivos.

-Ai sim?

-Passo a explicar, primeiro porque é sinal que gostaste de me ver, e depois porque tens um sorriso encantador.

-Ah obrigada – disse um pouco sem graça.

-É verdade, tens um sorriso lindo e não precisas corar. – afirmou sereno.

“Respira fundo” –  tentei descontrair.

-Estás linda. Estava na expectativa que viesses com aquele vestido bonitinho da discoteca, mas esses calções também te assentam muito bem – disse percorrendo-me com o olhar e com um sorriso atrevido.

-Não comeces já com piadinhas, bastaram as do Carlos hoje à tarde.

-Ele percebeu a química entre nós – disse o David divertido.

-Vamos entrar – desconversei, o calor não desaparecia do meu rosto.

-Sim vamos, já temos mesa reservada e como imagino que adoras o mar, pedi uma mesa ao lado da parede envidraçada para desfrutares o mais possível do nosso jantar. Olhas para o lado vês o mar, e olhas para a tua frente e vês-me a mim. – E deu uma gargalhada.

-Provocam-me sensações contrárias, o mar acalma-me e tu destabilizas-me. – ri.

O David franziu a sobrancelha mas não deixou de responder:

-Mas às vezes destabilizar nem sempre é mau. A partir de hoje quero ser como um mar para ti – e sorriu docemente.

Também não consegui deixar de esboçar um sorriso.
Entretanto entrámos no restaurante, era uma sala com uma decoração descontraída, a música criava um ambiente acolhedor, a luz era ténue o que retratava um certo romantismo.
Aproximou-se o empregado e fizemos o pedido.
A noite tinha começado bem, ainda com algumas piadas por parte do David mas que eu consegui achar graça.
Não podia deixar de contemplar aquele homem que tinha à minha frente, parecia-me quase perfeito.

-Mas diz-me, não corro o risco de ser surpreendido pelo teu marido e a tua filha, pois não? – Atreveu-se a perguntar-me.

-David, não sejas assim, aquele homem e aquela menina linda que viste no zoo eram o meu irmão e a minha sobrinha – expliquei-lhe como que a pedir desculpa.

-Quando te vi com eles, apeteceu-me contar tudo o que se tinha passado entre nós, detesto infidelidades. Quando me disseste que namoravas eu fiquei desapontado contigo, mas quando te vi no zoo fiquei desolado pensei que afinal eras casada e tinhas uma filha, era pior do que eu imaginava.

-Não sabia que ainda há homens/rapazes que pensam assim. Achava que lhes bastava dar uma queca, o resto não é importante. – disse ironicamente.

-Assim até me insultas, eu não sou assim, preservo muito a família, portanto não gosto de traições, sejam elas quais forem. - Respondeu-me muito sério.

-Desculpa. Entendo, foi muito mau da minha parte –desculpei-me timidamente – mas queres já começar com esta conversa?

-Sim, para acabarmos com o assunto já aqui.

-Ok. Então pergunta o que quiseres. – disse com firmeza.

A conversa entre nós tornara-se séria.

-Porque me mentiste?

-Porque me arrependi de ter ido para a cama contigo.

-Ui, essa custou a ouvir, não estava à espera dessa resposta. Foi assim tão mau?

Hesitei na resposta, eu queria dizer só a verdade naquela noite.

-Arrependi-me porque não costumo ir para a cama com homens que mal conheço, fui fraca, não resisti ao impulso. Além disso foi óptimo, o que me fez sentir mal.

-Óptimo! E fez-te sentir mal? Não entendo. Quando é óptimo normalmente sentimo-nos nas nuvens – disse baralhado.

-É mais difícil de explicar do que parece, um dia conto.

-Mas eu gostava de ouvir hoje. – insistiu.

-Se eu contar agora, a nossa noite vai ficar triste, e não é isso que pretendo. Aviso desde já que se contar vai haver lágrimas. Mas acredita que gostei muito de ter estado contigo.

-Então se vai ter lágrimas não quero, eu hoje só quero sorrisos, só alegria. Acredito que gostaste de estar comigo, porque eu adorei estar contigo. – sorri e fez-me uma festa ao de leve no rosto e rimos com cumplicidade – Mas quando é que me podes contar? Deixaste-me curioso.

- Quando é que tens uma manhã ou uma tarde de folga, para te encontrares comigo?  Estou aqui a ter uma ideia... hum... Mas aviso já que não podes ter nenhum jogo no dia seguinte, é que tenho um desafio para ti que te pode deixar com pequenas mazelas.

-Não gosto de violência, vai doer? – Perguntou com um ar sério mas deu para perceber que estava a gozar.

-Eu acho que tu vais gostar – esbocei um sorriso maroto.

-Como quero que me contes, marcamos para segunda à tarde, se der para ti. Se posso ficar com mazelas é melhor que seja depois do jogo de domingo com o Sporting. – sorriu – mas posso confiar em ti? Para onde me vais levar? – perguntou cheio de curiosidade.

-Podes confiar, mas é segredo depois no dia vês, mas se tiveres medo não te obrigo – dei uma gargalhada.

-Eu não tenho medo de nada, nem de trovoada – demos uma gargalhada – nunca gostei tanto de trovoada como naquele dia – piscou-me o olho.

Senti-me de novo a corar.
Entretanto fomos interrompidos pelo empregado com a comida.

-Não sejas parvo vamos comer que estás tudo com um aspecto delicioso.

A noite estava a ser bastante agradável, o David não me estava a pressionar para falar no que não me fazia sentir bem, o que era óptimo. Já tínhamos falado de imensas coisas, mas ainda havia muito mais para contar.

- Então fala-me um pouco de ti. É mesmo verdade que além de fotografa também és psicóloga?

-Sim é meia verdade, eu sou fotografa não sou psicóloga, só tirei o curso por pressão dos meus pais. O canudo está bem guardado, em curto, médio prazo não pretendo exercer, mas nunca se sabe o que o futuro nos reserva. Mas a fotografia neste momento preenche-me profissionalmente.

- Eu gosto muito de fotografias, nelas posso combater a saudade. Recordo a ausência, a separação dos que amo, as pessoas que já faleceram, as que desapareceram do meu dia a dia. Faz-me reviver, momentos, pessoas, lugares, as alegrias… Os acontecimentos terminam mas fotografias permanecem.

-Adorei a tua descrição, é mesmo isso. Desde pequenina que adoro fotografar e por conseguinte fotografias. A fotografia mostra-me muito mais daquilo do que se vê. Em alguns ensaios fotográficos consigo fazer com que a pessoa fotografada encontre uma emoção, que nunca tenha sentido e isso dá-me imensa satisfação. A fotografia é capaz de agredir, de emocionar ou encorajar uma pessoa. – fiz uma pausa – para mim fotografia é arte. Mas vou-me calar, senão dou-te seca, e não saboreias como deve ser esta comida maravilhosa.

O David estava ouvir-me com um sorriso enorme e luminoso.

-Nada disso, não sejas tontinha, estava a adorar ouvir a tua discrição, falas do teu trabalho com imensa paixão.

-Sim com paixão mesmo. Mas fala-me também um pouco de ti?

-Não vale a pena – disse com um ar serio.

-Então porquê?

-Tu já sabes tudo, viste a minha entrevista para o Alta definição.

-Sim é verdade – rimos os dois – e deixa dizer-te que adorei as tuas respostas, tão novinho e com respostas tão bem estruturadas, fiquei tua fã – pisquei-lhe o olho.

-Não sou assim tão novinho tenho 23 anos, não gozes, está bem ou Sra. adulta?

-Hoje não nos vamos agredir, ok? –  disse com firmeza mas num tom de brincadeira.

-OK. – o David olhou para mim fez uma pausa, esboço um sorriso e continuou.

-Sabes, a história da paparazzi…

-Esquece isso por favor, envergonha-me – interrompi-o.

- Tenho que lembrar, é importante. Na altura que vi as fotos publicadas fiquei furioso contigo, mas se não fossem essas fotos se calhar não nos teríamos conhecido.

-Tínhamos sim, não queiras ser romântico - ri-me –Mais cedo ou mais tarde ia fotografar-te, não me ias escapar – disse em tom de piada para não me sentir constrangida naquele momento.

Rimos os dois mas o David continuou.

- Até ao dia em que te “dei molha” com o carro, via-te como persona non grata, mas a partir dessa noite pensei que não podia ser inimigo de uma mulher linda como tu, estavas lindíssima com aquele vestido.

-Estás a ser irónico.

-Não estou não, adorei ver-te de vestido.

-David engate hoje não – rimos os dois.

-Só perdeste um pouco de encanto quando cantaste – e deu uma gargalhada bem alta – mas de resto estavas perfeita. E adorei saber que eras tu que ias fotografar o Calendário para a Mística.

Eu olhava timidamente para ele mas embevecida, estava sem palavras.
Fomos entretanto interrompidos por um fã mais atrevido.

-David pode dar-me um autógrafo?

O David disse-lhe logo que sim. Mas o rapaz não tirava os olhos de mim. Ao ouvir o David chamar-me Ana ele disse:

- Eu conheço-a.

-Pois se calhar é provável –respondi, tristemente, percebi logo porque me conhecia.

-Sim, conheço é a namorada do Bernardo – disse rapaz satisfeito.

-Sim era.

-Sinto muito o que aconteceu.

-Obrigada. – respondi estando já a sentir-me incomodada.

-Tira uma foto comigo?

-Sim, com certeza – tentei ser gentil.

Tirei a foto com o rapaz com um sorriso um pouco forçado, aquela situação deixou-me desconfortável. O rapaz agradeceu e afastou-se de nós.
O David perguntou logo.

-Então és famosa e não me disseste?

-Já fui, mas só para um grupo muito restrito de pessoas.

-Mas não é como fotografa pois não?

-Não, mas segunda conto-te.

-Mas o Bernardo já não existe na tua vida?

-Existe mas não como tu estás a pensar. Mas vamos mudar  de assunto, depois … vais saber tudo prometo.

O David acenou que sim, mas senti-o um pouco desapontado.

-Olha, acho que vem uma musiquinha animada ali do bar do restaurante, se calhar há uma festa, vamos até lá? – tentei acabar com o desconforto que se havia instalado entre nós.

4 comentários:

  1. Lindo, eu adoro esta história. Aquele romantismo, o mistério, a paixão que escondem..tudo.

    Marisa

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  2. Amei, eu adoro a tua historia mesmo!

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