Passaram seis meses desde que me instalei em casa da Joana, uma mudança que me fez bem, mas as saudades do Bernardo permaneceram, mas só o facto de ter companhia de dois amigos fantásticos todas as noite alegrava-me a vida.
A dor ainda persistia mas com o tempo a minha vida voltaria ao normal, precisava acreditar nisso. Andava ter acompanhamento psicológico e frequentava uma associação de apoio às pessoas em luto, partilhar a minha experiência com outras pessoas que estavam a passar pelo mesmo, fazia com que me sentisse mais leve, melhor comigo mesma. Por forças maiores tive que criar novas rotinas, mas estava de volta à vida o que era mais importante.
Continuava a trabalhar na revista social Olhares, o meu colega estava de volta portanto já não era fotógrafa desportiva. Nestes últimos meses tinha-me dedicado de corpo e alma ao trabalho, fiz formações atrás de formações para enriquecer o meu currículo e para aprender cada vez mais. Com tal dedicação consegui alguns contratos com outras revistas e jornais. Resumindo a vida estava a encaminhar-se.
“Um número privado … não sei se atenda, não gosto de números privados … bem vou atender, pode ser algum trabalho”.
-Estou sim? – atendi expectante.
-Bom dia, estou a falar com a Ana Margarida Moniz? – disse uma voz masculina do outro lado da linha.
-Está sim – não reconheci a voz.
-Está a falar com Fernando Lopes falo em nome do departamento de imprensa do Benfica, mais propriamente da revista Mística. Queríamos fazer-lhe uma proposta para um trabalho.
- Ah …! ok ...! – exclamei surpreendida, tinha sido apanhada de surpresa. - Então e esse trabalho será para quando?
Já não ouvia falar do Benfica há algum tempo (com a excepção da minha Joana que estava sempre a convidar-me para ir aos jogos), até já tinha esquecido do mal estar com o David Luiz, depois daquela situação embaraçosa ainda me cruzei com ele em eventos sociais (ele era o jogador da moda) mas felizmente nunca precisei de o fotografar. Cada vez que o via olhava-o com uma certa raiva e o olhar era recíproco. Mas nunca mais trocámos palavras. Mas, estava visto, nunca haveríamos de nos esquecer da cara um do outro, mas por motivos menos bons.
- Gostaríamos que fosse para antes do natal, estamos a pensar em fazer um calendário com atletas do Benfica e desejaríamos que saísse na revista de Dezembro.
- Bem já tenho bastante trabalho marcado até Dezembro, faltam quatro meses hum … mas penso que posso aceitar.
-Óptimo, já conhecemos o seu trabalho e sabemos que é bastante profissional –elogiou o Sr.
-Alguns dos jogadores do seu clube não pensam isso – disse eu entre dentes, referindo-me ao David Luiz como é óbvio.
-Desculpe não percebi – disse o Sr. baralhado.
-Nada de importante, então e marcamos a reunião para quando, é preciso acertar pormenores do trabalho e para saber se realmente me interessa.
-Pode ser hoje ao final da tarde?
-Sim, pode ser até vou fazer um trabalho para esses lados.
Marcámos o encontro e à hora combinada lá estava eu, sempre pontual.
Estava a sair do carro e a pensar que com a sorte que tinha lá iria fotografar o David Luiz, mas também sinceramente não me importava, já tinha ultrapassado aquela história do paparazzi (pensava eu). “ E se me cruzar com ele” pensei eu “que se lixe não lhe devo nada”
A Ana confiante estava de volta, gostava de mim assim.
Mal entrei nas instalações do estádio da luz, nem queria acreditar, a equipa principal do Benfica. “Porra nem de propósito, que pontaria” pensei eu.
Bati logo os olhos no meu jogador “preferido” (irónica), o David Luiz.
Levantei a cabeça e passei por eles cheia de confiança ( tive que levantar a cabeça porque passar por vinte e não sei quantos homens não é fácil (as mulheres percebem o que quero dizer com isto, ah, ah, ah).
“Coragem Ana Margarida”pensei eu.
O primeiro por quem passei foi o Ruben Amorim, piscou-me o olho e disse olá, ele recordava-se de mim desde aquela sessão de fotos com as cheerleaders. Este sim era simpático. Retribui o cumprimento com um sorriso. E ouvi o David Luiz num sussurro dizer ao amigo:
-Afinal ela sabe sorrir, ninguém diria – e fez um sorriso de troça.
Fiquei lixada, mas ignorei. De facto os nossos santos não se cruzavam, paciência.
Já na reunião.
Começámos a reunião, eles já tinham tudo planeado até já tinham o nome dos atletas benfiquistas decididos para cada mês e tudo.
Um jornalista começou a ler a lista dos atletas escolhidos:
-Vanessa Fernandes, Nelson Évora, Ricardinho, Telma Monteiro, David Luiz…
Interrompi:
-David Luiz? Porque tem que ser ele o futebolista, eu escolhia outro.
- O David Luiz vende muito bem, tanto em Portugal como no estrangeiro, e além disso tem uma legião de fãs, é um jogador que consegue agradar ao sexo feminino por causa da beleza e ao masculino por causa das suas brilhantes qualidades futebolísticas.
Que gaita não me apetecia fotografar o David Luiz, afinal até me importava.
- Eu acho que o Coentrão era uma boa aposta, ou até Ruben Amorim (com quem eu tanto simpatizei), foram ao mundial e também são muito queridos para os adeptos.
O jornalista voltou à carga.
-Desculpe mas há algum problema em ser o David Luiz? Já falámos com ele e adorou a ideia. Ele tem um look diferente dos outros o que faz com que se destaque no grupo, portanto ele é o futebolista ideal para modelo de calendário - e deu uma gargalhada.
Fiz um sorriso amarelo e limitei-me a fazer o sinal de ok.
Acertei tudo com a equipa da revista do Benfica e ficou decidido que começava na semana seguinte.
Quando sai da sala não pude deixar de pensar, que tinha mesmo que trabalhar com ele, não podia recusar a proposta era boa a nível monetário e de visibilidade profissional.
Cheguei a casa a Joana e o Mário estavam em pulgas para saber as novidades.
-Então amiga vais trabalhar para o meu Benfica? - perguntou ela ansiosa.
- Pois parece que sim, fizeram-me a proposta para fazer um calendário com atletas do Benfica para sair em Dezembro.
- Parece-me bem interessante – disse o Mário - Quem vão ser os atletas?
Nomeei todos e deixei para último o David Luiz. Ao ouvir o nome do David Luiz a Joana deu uma gargalhada bem alta e começou aos saltinhos no meio da sala a apontar para mim:
- Eu não te disse que ele ainda ia ser fotografado por ti? Não se consegue fugir ao destino - disse ela divertida .- E achas que ele já sabe disso?
-Sabe que vai fazer parte do calendário mas não deve saber que sou eu que vou fotografar, até porque hoje passei por ele e não resistiu a lançar-me mais uma farpa. Sempre simpático o menino dos caracóis.
- Cruzaste-te com ele? Que sortuda…
-Não percebo onde consegues ver sorte nisso, mas tu lá sabes … Bem já chega falar desse menino, falemos de coisas mais agradáveis. O jantar já está pronto? Estou esfomeada –sorri.
-Pois, pois desconversa menina Anita – gozou a Joana – mas vamos lá jantar que a minha barriga já está a dar horas.
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