-Bolas já são 15h – murmurei um nadinha ansiosa – a esta hora com certeza que não vou encontrar a equipa de futebol, até porque devem estar a treinar no Seixal – tentava convencer-me para não entrar em grande stress.
Como uma simples visita ao estádio da luz me podia deixar tão nervosa? Eu conhecia perfeitamente a resposta. As fotos que eu tinha tirado à socapa ao David Luiz eram as culpadas deste meu estado.
Já passavam trinta minutos da hora marcada com o Borges, aquele grande ícone do jornalismo desportivo também se atrasava … até tinha a sua graça.
Decidi sentar-me no bar da redacção, tomar um cafezito, e colocar alguma leitura em dia, andava em falta há varias semanas.
- Boa tarde menina Ana!
Aquela voz assustou-me, deu para perceber que fui apanhada de surpresa.
- Tenha calma, não tinha intenção de a assustar.
- Desculpe Sr. Director – respondi baixinho, escondendo a revista. Não queria acreditar que além de estar a apanhar uma seca monumental ainda tinha sido apanhada a ler uma revista pelo director.
- Então o que faz aqui tão descontraída? Não há trabalho? – resmungou ele.
- Estou à espera do Borges, vamos fazer uma peça ao estádio da luz …
- Por falar em estádio da luz – interrompeu o Sr. “manda e posso” deselegantemente como de costume – vi a foto do David Luiz que foi publicada neste número da Olhares e não gostei do seu trabalho, a Ana não tem perfil para paparazzi, portanto achei melhor contratar outro fotógrafo enquanto o seu colega se encontrar de baixa.
E já agora tenho um trabalhinho para si também relacionado com a Instituição Benfica, mas ainda estou em conversação com eles, falta acertar alguns pontos. Mas acerca disso falamos um outro dia, agora estou com pressa, não tenho tempo para reuniões.
Virou costas e saiu a porta do bar. Não sabia se havia de rir ou chorar. “filho da mãe a criticar o meu trabalho, tudo bem que não tenho experiência (note-se nenhuma experiência) como paparazzi, mas desdenhar assim o meu trabalho não é justo”. Mas ao mesmo tempo senti um forte alivio, estava livre de situações embaraçosas que me poderiam vir a acontecer de novo devido ao facto de tirar umas fotografias às escondidas e sem autorização do fotografado. Mas na minha cabeça ficou a fazer eco a palavra Benfica, Benfica, Benfica. Apeteceu-me gritar “ mais Benfica não por favor”.
Estava a pensar na minha triste sorte quando finalmente o Borges deu sinal de vida.
- Ana mil desculpas, apanhei um acidente no IC19 e como imaginas o trânsito ficou lento como um caracol, mas já liguei para a luz e estão conhecedores do nosso atraso. E tenho novidades, chama lá o Roberto (que era o meu assistente de iluminação) que eu conto durante a viagem para o estádio.
Fui chamar o Roberto e no caminho ia a tentar adivinhar que novidade teria o Borges para contar. Até já tinha medo de imaginar.
Mal entrámos no carro o Borges começou a desbobinar. Teríamos que fazer uma entrevista a três meninas da claque e iriam aparecer uns jogadores de surpresa para também tirarem umas fotos, assim com certeza a revista venderia mais.
- E já sabe quais são os jogadores? – perguntei eu um pouco em pânico, não conseguia disfarçar o meu desconforto.
- Estás com medo que o David Luiz seja um deles? – gracejou.
- Sim, quer dizer não – disse eu sem saber o que responder.
-Não te preocupes que em principio ele não virá. Estou a ver que o facto teres feito umas fotos dele sem autorização está a deixar-te muito nervosa, é normal, mas não te apoquentes, primeiro estranha-se mas depois entranha-se.
-O Sr. Director disse que já contratou outro fotógrafo para fazer essas fotos indiscretas, que eu não fiz o trabalho bem feito.
O Borges riu, mas brindou-me com umas palavras simpáticas:
- Tu és uma excelente fotógrafa, os teus clicks transformam-se sempre em arte, tu fotografas com o coração, o teu olhar vai mais longe do que a maior parte dos fotógrafos que andam aí pela praça, e não te estou a dizer isto para te fazer inchar o ego, digo-o porque acho que és mesmo boa no que fazes.
As minhas faces ficaram rosadas, não consegui evitar, perante este enorme elogio só me ocorreu responder:
- Obrigada, também admiro muito o seu trabalho.
-Mas Ana em relação ao David Luiz estás tramada, ele memorizou a tua cara com toda a certeza, detesta que lhe invadam a privacidade, quando ele te apanhar a jeito não te livras de um raspanete.
- Obrigada Borges, deixou-me muito mais descansada - ironizei.
Chegámos ao estádio da Luz. O nervosismo aumentara após a conversa com o velho e sabido Borges. Saí do carro um pouco reticente, enquanto não via os jogadores que ia fotografar não acalmava.
Ainda não estávamos a chegar ao relvado e eu já respirava fundo, não via caracóis no horizonte – “ainda não é hoje “ pensei.
Saiu-me um suspiro mais alto do que esperava.
-Mais calma agora que percebeste que o amigo David não faz parte dos escolhidos para as tuas fotos?
-Sim, muito mais – sorrimos os três.
No relvado estavam as cheerleaders, talvez umas vinte, e três jogadores do plantel principal do Benfica.
O Roberto e o Borges estavam maravilhados com as meninas.
- Nuno (Gomes), Fábio (Coentrão), Ruben (Amorim), esta menina é a fotógrafa da Olhares a Ana e o assistente de iluminação Roberto.
- Prazer – dissemos todos.
O Ruben sorriu-me com um ar malandreco, como que a dar sinais que me conhecia.
Senti-me um pouco incomodada , mas não me deixei intimidar.
Passado mais ou menos uma hora já tinha as fotos necessárias para fazer uma boa galeria.
Agradeci a todos pela paciência e empenho e comecei a arrumar o meu material de trabalho. De repente fui surpreendida por uma voz masculina que ainda não tinha ouvido naquela tarde, mas que não me era totalmente desconhecida. - Olá Sra. Paparazzi, como tem passado? Tem tido muito trabalho a espiar a vida dos outros? Motivos não lhe devem faltar para invadir a privacidade dos famosos, mesmo que não haja vocês arranjam sozinhos.
Gelei, era o David Luiz, “o que faço” pensei “que vergonha”.
Ele continuou:
-Trabalhinho feio o seu, se calhar se fosse mesmo psicóloga ganhava mais com isso. Eu bem a conheci no restaurante, mas pus em causa a minha memória visual assim que a sua amiguinha disse que eram psicólogas.
- E somos respondi eu um pouco envergonhada e baixinho.
-Mano tem calma, ela com certeza fez as fotos porque é obrigada a fazer, é a profissão dela, tens que entender – o Ruben foi um querido em tentar acalmar o amigo e ao mesmo tempo ajudar-me.
Resolvi defender-me, já estava farta de ser julgada em praça publica e já me sentia um nadinha insultada.
- É tal e qual como o seu amigo disse.
O David tentou interromper-me mas eu não deixei, impondo-me aumentando o tom de voz (o que era raríssimo acontecer).
- Não tirei aquelas fotos com gosto, tirei porque fui obrigada, foi a primeira vez que o fiz e acredite que detestei, senti-me muito mal a invadir a sua privacidade, mas também se o deixa mais feliz, fui despedida do papel de paparazzi, o meu patrão não gostou das fotos que lhe tirei. E só para acabar, a minha amiga não é mentirosa, e quando lhe disse que eu era psicóloga estava a ser verdadeira. Além de fotógrafa profissional, sou também psicóloga mas não exerço. Tenha um resto de boa-tarde.
Virei costas e não dei hipótese de respostas, sai daquele relvado o mais depressa possível.
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