Entrei no prédio da Olhares um pouco apreensiva, não sabia como ia ser recebida pelos meus colegas de trabalho, ao entrar no elevador cruzei-me com o Sr. Joaquim, o porteiro.
- Olá menina Ana bom-dia.
- Bom-dia.
- Já soube o que se passou, sinto muito mas a vida é mesmo assim, à que ter força para seguir em frente, a vida continua.
Acenei com a cabeça que sim, entretanto a porta do elevador fechou, e senti-me aliviada, há uma semana que ouvia aquela conversa, e estava saturada, tinha a percepção que não era por mal, as pessoas só me queriam confortar, mas só aumentavam as saudades, a dor.
Antes de abrir a porta da Olhares respirei fundo e pensei “ Que seja o que Deus quiser:”
Entrei disposta a pensar só no trabalho assim estaria distraída e esquecia (se isso fosse possível) o Bernardo por uns segundos que fosse.
Mal entrei a redacção parou a olhar para mim, e eu sem saber o que dizer, saiu-me apenas um olá muito, muito baixinho. Todos responderam olá com um ar de compaixão, de pena, excepto a Rita, a minha melhor amiga no trabalho.
- Bom-dia Anita, já estava com saudades.
Aproximou-se de mim, deu-me um abraço e segredou-me:
- Vem comigo, vamos falar um bocadinho, que o director hoje só chega às 10h, e que eu saiba não tens nenhum trabalho marcado até essa hora.
Fiz o que ela me pediu, seguia tipo zombie, só queria sair daquela sala, da vista daqueles olhares que me estavam a sufocar.
- Então miúda com forças para o trabalho? Se calhar devias ficar mais uma ou duas semanas em casa, a descansar.
- Não! É melhor vir trabalhar, ocupar a cabeça com outros problemas, vai fazer-me bem, e além disso se ficar em casa só me entristece mais, só penso no Bernardo, passo o dia na cama, nem sequer consigo brincar com a Noa e com o Toni, nem me lembro de comer - comecei a chorar compulsivamente - . O Bernardo faz-me tanta falta e ainda só passou uma semana, não vou aguentar as saudades. Estou a pensar em sair daquela casa, alugar outra. Aquela casa traz-me recordações maravilhosas, mas não aguento pensar que o Bernardo não vai voltar, que tudo que vivi com ele naqueles 6 anos da nossa vida em comum nunca mais voltam acontecer. Mas não sei - disse eu meia baralhada enquanto ia limpando as lágrimas - também me falta coragem de abandonar aquela casa, sinto que estou a fugir do meu passado com o Bernardo, que estou a trair.
- Oh não podes pensar nisso, o Bernardo morreu, não vai voltar mas vai ser sempre teu e tu dele. E com o tempo essa dor vai ficar mais adormecida e vais ver como vai ser fácil voltar a sorrir, tens uma família maravilhosa, uns amigos que te adoram e tens a profissão que gostas, qualquer dia apaixona…
- Rita pára – interrompia - não me fales em outros homens, agora não, por favor.
- Desculpa, falei demais… - disse meia envergonhada.
- Não faz mal, mas não me arranjem namoros, nem sequer quero pensar nisso, a dor neste momento é tão forte, o vazio é tão grande que isso está fora de questão a curto médio prazo, afinal foram 7 anos de namoro e seis a viver em comum, as recordações não se apagam de um dia para o outro.
- Eu sei Anita desculpa, saiu-me sem pensar. Mas olha vou dizer-te um grande cliché mas que é uma grande verdade “O tempo cura tudo”.
- Quero acreditar que sim amiga, mas ainda tenho um longo percurso de luto à minha frente.
Ouvimos um bom-dia ao fundo do corredor.
- O Director chegou! – exclamou a Rita aflita.
- E eu aqui na conversa contigo, ele não vai gostar.
- Bom-dia minhas senhoras, então Ana já de volta ao trabalho, acho bem já não estava a fazer nada em casa e nós aqui precisamos muito de si, o outro fotógrafo está de baixa, partiu a merda da perna e agora vai ficar meses em casa, portanto a minha querida - não suportava quando me tratava por minha queria, que nojo - além da fazer as fotografias do social, vai passar a ser também a fotografa de serviço do desporto, e tirar umas fotos indiscretas - ahahah riu-se ele em alto som - . Estou certo que dará conta de tudo com grande profissionalismo. A Cristina - a secretária do Director Frankenstein, era assim que o tratávamos na redacção, sem ele saber como era evidente - vai dar-vos o trabalho que têm marcado para hoje e amanhã, a Rita pode ser a jornalista que vai fazer a entrevista com a Ana. Tenham um bom-dia.
Eu e a Rita estávamos boquiabertas, só conseguimos dizer as duas ao mesmo tempo.
- Sim Sr. Director.
Já ia de saída o Sr. Frankenstein, quando de repente se virou de novo e retorquiu olhando para mim.
- Não está com muito boa cara, cuide-se, não posso ficar sem outro fotógrafo.
E saiu para o gabinete dele.
- Filho da puta, que raiva, que bruto, não tem coração – disse a Rita enraivecida.
- Deixa lá, já devíamos estar habituadas, ele sempre foi assim.
Mas aquelas palavras feriram-me, mas também não podia esperar outra coisa vinda daquele homem, desde que fui trabalhar para a revista Olhares, nunca o ouvi ter uma palavra gentil para o trabalhadores daquela redacção, sempre rude, sempre a achar-se o maior. Completamente egocêntrico.
- Bem depois de esta recepção de boas-vindas do Sr. Frankenstein é melhor pôr mãos ao trabalho e ir ter com a Cristina para ver o que nos espera.
Enquanto nos dirigíamos ao para o gabinete da Cristina não pude deixar de comentar.
- Mas que gaita, ter que fazer parte do departamento de desporto tudo bem, agora andar por ai armada em paparazzi – torci o nariz - não me parece que vá gostar. Ai Rita - disse eu com ar aflito - , detesto tirar fotos às pessoas sem autorização. Grande porra.
A Rita sorriu.
- D. Cristina bom-dia mais uma vez, então diga-nos lá qual é o famoso que nos calhou na lotaria para hoje?
A D. Cristina ao contrário do Director era uma Sra. adorável, sempre com um sorriso e uma palavra simpática para dizer, já trabalhava há muitos anos com aquele Director, era o braço direito dele, nós interrogávamo-nos como era possível ela aguentá-lo tantos anos.
- Bom-dia meus doces, como estás Anita?…- eu ia responder, mas ela nem me deu tempo para responder - espero que melhor, ó filha, isso com o tempo passa, precisas é de ter força … blá, blá, blá - a conversa de sempre - se precisares de alguma coisas já sabes que estou aqui para te ajudar.
-Obrigada D. Cristina.
- Então D. Cristina diga lá quem vamos conhecer amanhã, estou curiosa! – interrompeu a Rita já impaciente.
- Bem filhinhas, vão mesmo entrevistar a Fátima Lopes. Vão fazer a entrevista na praia do Meco.
- Com este tempo? Na praia? - disse eu muito admirada - Não está a chover, mas se calhar não vamos ter que esperar muito para que isso aconteça. Mas qual Fátima Lopes? A apresentadora ou a estilista?
- A apresentadora, gosto tanto dela, tem mesmo bom coração. Aqui têm a informação que precisam. E bom trabalho.
-Até já.
Eu e a Rita afastámo-nos para o nossos computador, tínhamos que preparar a reportagem do dia seguinte, nada podia falhar, até porque ia ser a primeira entrevista que a Fátima Lopes ia dar a uma revista depois de se ter transferida da Sic para a Tvi, ia ser a capa da próxima edição.
Já o dia ia longo quando entra o Director pelo meu gabinete dentro, sem sequer bater à porta.
- Ana pegue na sua máquina e vá já para o Chiado, um futebolista famoso, que agora anda muito na berra foi visto com uma namorada nova, temos que ser os primeiros a ter fotos e a publicá-las. Com a Fátima Lopes na capa e o David Luiz com a namorada nova, esta edição vai vender bem.
-Ah agora - disse eu meia espantada e não querer acreditar no que estava a ouvir.
– Claro que é agora, um “espião” nosso ligou-me, disse que ele anda por lá de mão dada com um mulherão. Mexa-se - gritou ele.
Estremeci - Ok.
- Oh Meu Deus o David Luiz, aquele jeitoso? Também quero ir, ai quero, quero.
-Merda, não tenho carro, hoje vim de metro.
- Aqui a amiga ajuda, vamos no meu eu levo-te, vamos lá tirar umas fotos ao David Luiz , aquele Deus brasileiro - e deu uma gargalhada.
-Vamos a isso, que sorte a minha.
A caminho do Chiado as pernas tremiam-me de nervosismos, não gostava deste género de trabalho e ainda por cima ia devassar a vida alheia, não estava certo.
Chegámos ao Chiado não foi preciso procurar muito e lá estava o David Luiz, mais a sua dama, tirei a máquina e comecei a tirar umas fotos discretamente, mas não estava a conseguir tirar fotos nítidas.
-Possa não consigo tenho que me aproximar mais, mas ele não me pode ver se não estou lixada.
- Fogo ele é mesmo bom – a Rita parecia um disco riscado, sempre a repetir a mesma coisa.
Aproximei-me mais um pouco e clic uma foto boa.
- Fixe consegui apanhá-los, vou tirar mais uma ou duas e é suficiente. E vamo-nos pirar daqui antes que eles nos veja - continuei a tirar.
- Já viu ele vem ai, foge - gritou a Rita mas já a desandar.
-Fujo? - fiquei apática.
– Ei, a menina aí, o que está a fazer? Pare com isso - gritou ele ainda de longe.
-Quem eu? - perguntei eu com ar de parva, não consegui fugir logo, fiquei paralisada.
– Entra - ordenou a Rita aflita.
Reagi aquele grito e entrei no carro fugindo do David Luiz. Ele ainda correu ao encontro do carro mas já não nos conseguiu alcançar.
– Uau, quero ser paparazzi, isto é muita adrenalina - a Rita ia eufórica.
- Detestei, ainda por cima olhei-o nos olhos, ele viu quem eu era.
- E achas que se te vir na rua te vai reconhecer? Claro que não. Não sejas convencida.
-Pois claro que não – e baixei o olhar.
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