segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Fanfic "O Meu Olhar" 2º Capitulo

Entrei no prédio da Olhares um pouco apreensiva, não sabia como ia ser recebida pelos meus colegas de trabalho, ao entrar no elevador cruzei-me com o Sr. Joaquim, o porteiro.
- Olá menina Ana bom-dia.

- Bom-dia.

- Já soube o que se passou, sinto muito mas a vida é mesmo assim, à que ter força para seguir em frente, a vida continua.

Acenei com a cabeça que sim, entretanto a porta do elevador fechou, e senti-me aliviada, há uma semana que ouvia aquela conversa, e estava saturada, tinha a percepção que não era por mal, as pessoas só me queriam confortar, mas só aumentavam as saudades, a dor.
Antes de abrir a porta da Olhares respirei fundo e pensei “ Que seja o que Deus quiser:”
Entrei disposta a pensar só no trabalho assim estaria distraída e esquecia (se isso fosse possível) o Bernardo por uns segundos que fosse.
Mal entrei a redacção parou a olhar para mim, e eu sem saber o que dizer, saiu-me apenas um olá muito, muito baixinho. Todos responderam olá com um ar de compaixão, de pena, excepto a Rita, a minha melhor amiga no trabalho.

- Bom-dia Anita, já estava com saudades.

Aproximou-se de mim, deu-me um abraço e segredou-me:

- Vem comigo, vamos falar um bocadinho, que o director hoje só chega às 10h, e que eu saiba não tens nenhum trabalho marcado até essa hora.

Fiz o que ela me pediu, seguia tipo zombie, só queria sair daquela sala, da vista daqueles olhares que me estavam a sufocar.

- Então miúda com forças para o trabalho? Se calhar devias ficar mais uma ou duas semanas em casa, a descansar.

- Não! É melhor vir trabalhar, ocupar a cabeça com outros problemas, vai fazer-me bem, e além disso se ficar em casa só me entristece mais, só penso no Bernardo, passo o dia na cama, nem sequer consigo brincar com a Noa e com o Toni, nem me lembro de comer - comecei a chorar compulsivamente - . O Bernardo faz-me tanta falta e ainda só passou uma semana, não vou aguentar as saudades. Estou a pensar em sair daquela casa, alugar outra. Aquela casa traz-me recordações maravilhosas, mas não aguento pensar que o Bernardo não vai voltar, que tudo que vivi com ele naqueles 6 anos da nossa vida em comum nunca mais voltam acontecer. Mas não sei - disse eu meia baralhada enquanto ia limpando as lágrimas - também me falta coragem de abandonar aquela casa, sinto que estou a fugir do meu passado com o Bernardo, que estou a trair.

- Oh não podes pensar nisso, o Bernardo morreu, não vai voltar mas vai ser sempre teu e tu dele. E com o tempo essa dor vai ficar mais adormecida e vais ver como vai ser fácil voltar a sorrir, tens uma família maravilhosa, uns amigos que te adoram e tens a profissão que gostas, qualquer dia apaixona…

- Rita pára – interrompia - não me fales em outros homens, agora não, por favor.

-  Desculpa, falei demais… - disse meia envergonhada.

- Não faz mal, mas não me arranjem namoros, nem sequer quero pensar nisso, a dor neste momento é tão forte, o vazio é tão grande que isso está fora de questão a curto médio prazo, afinal foram 7 anos de namoro e seis a viver em comum, as recordações não se apagam de um dia para o outro.

- Eu sei Anita desculpa, saiu-me sem pensar. Mas olha vou dizer-te um grande cliché mas que é uma grande verdade “O tempo cura tudo”.

- Quero acreditar que sim amiga, mas ainda tenho um longo percurso de luto à minha frente.

Ouvimos um bom-dia ao fundo do corredor.

- O Director chegou! – exclamou a Rita aflita.

- E eu aqui na conversa contigo, ele não vai gostar.

- Bom-dia minhas senhoras, então Ana já de volta ao trabalho, acho bem já não estava a fazer nada em casa e nós aqui precisamos muito de si, o outro fotógrafo está de baixa, partiu a merda da perna e agora vai ficar meses em casa, portanto a minha querida - não suportava quando me tratava por minha queria, que nojo - além da fazer as fotografias do social, vai passar a ser também a fotografa de serviço do desporto, e tirar umas fotos indiscretas - ahahah riu-se ele em alto som - . Estou certo que dará conta de tudo com grande profissionalismo. A Cristina - a secretária do Director Frankenstein, era assim que o tratávamos na redacção, sem ele saber como era evidente - vai dar-vos o trabalho que têm marcado para hoje e amanhã, a Rita pode ser a jornalista que vai fazer a entrevista com a Ana. Tenham um bom-dia.

Eu e a Rita estávamos boquiabertas, só conseguimos dizer as duas ao mesmo tempo.

 - Sim Sr. Director.

Já ia de saída o Sr. Frankenstein, quando de repente se virou de novo e retorquiu olhando para mim.

- Não está com muito boa cara, cuide-se, não posso ficar sem outro fotógrafo.

E saiu para o gabinete dele.

- Filho da puta, que raiva, que bruto, não tem coração – disse a Rita enraivecida.

- Deixa lá, já devíamos estar habituadas, ele sempre foi assim.

Mas aquelas palavras feriram-me, mas também não podia esperar outra coisa vinda daquele homem, desde que fui trabalhar para a revista Olhares, nunca o ouvi ter uma palavra gentil para o trabalhadores daquela redacção, sempre rude, sempre a achar-se o maior. Completamente egocêntrico.

- Bem depois de esta recepção de boas-vindas do Sr. Frankenstein é melhor pôr mãos ao trabalho e ir ter com a Cristina para ver o que nos espera.

Enquanto nos dirigíamos ao para o gabinete da Cristina não pude deixar de comentar.

- Mas que gaita, ter que fazer parte do departamento de desporto tudo bem, agora andar por ai armada em paparazzi – torci o nariz - não me parece que vá gostar. Ai Rita - disse eu com ar aflito - , detesto tirar fotos às pessoas sem autorização. Grande porra.

A Rita sorriu.

- D. Cristina bom-dia mais uma vez, então diga-nos lá qual é o famoso que nos calhou na lotaria para hoje?

A D. Cristina ao contrário do Director era uma Sra. adorável, sempre com um sorriso e uma palavra simpática para dizer, já trabalhava há muitos anos com aquele Director, era o braço direito dele, nós interrogávamo-nos como era possível ela aguentá-lo tantos anos.

- Bom-dia meus doces, como estás Anita?…- eu ia responder, mas ela nem me deu tempo para responder - espero que melhor, ó filha, isso com o tempo passa, precisas é de ter força … blá, blá, blá - a conversa de sempre - se precisares de alguma coisas já sabes que estou aqui para te ajudar.

-Obrigada D. Cristina.

- Então D. Cristina diga lá quem vamos conhecer amanhã, estou curiosa! – interrompeu a Rita já impaciente.

- Bem filhinhas, vão mesmo entrevistar a Fátima Lopes. Vão fazer a entrevista na praia do Meco.

- Com este tempo? Na praia? - disse eu muito admirada - Não está a chover, mas se calhar não vamos ter que esperar muito para que isso aconteça. Mas qual Fátima Lopes? A apresentadora ou a estilista?

- A apresentadora, gosto tanto dela, tem mesmo bom coração. Aqui têm a informação que precisam. E bom trabalho.

-Até já.

Eu e a Rita afastámo-nos para o nossos computador, tínhamos que preparar a reportagem do dia seguinte, nada podia falhar, até porque ia ser a primeira entrevista que a Fátima Lopes ia dar a uma revista depois de se ter transferida da Sic para a Tvi, ia ser a capa da próxima edição.
Já o dia ia longo quando entra o Director pelo meu gabinete dentro, sem sequer bater à porta.

- Ana pegue na sua máquina e vá já para o Chiado, um futebolista famoso, que agora anda muito na berra foi visto com uma namorada nova, temos que ser os primeiros a ter fotos e a publicá-las. Com a Fátima Lopes na capa e o David Luiz com a namorada nova, esta edição vai vender bem.

-Ah agora - disse eu meia espantada e não querer acreditar no que estava a ouvir.

– Claro que é agora, um “espião” nosso ligou-me, disse que ele anda por lá de mão dada com um mulherão. Mexa-se - gritou ele.

Estremeci - Ok.

- Oh Meu Deus o David Luiz, aquele jeitoso? Também quero ir, ai quero, quero.

-Merda, não tenho carro, hoje vim de metro.

- Aqui a amiga ajuda, vamos no meu eu levo-te, vamos lá tirar umas fotos ao David Luiz , aquele Deus brasileiro - e deu uma gargalhada.

-Vamos a isso, que sorte a minha.

A caminho do Chiado as pernas tremiam-me de nervosismos, não gostava deste género de trabalho e ainda por cima ia devassar a vida alheia, não estava certo.

Chegámos ao Chiado não foi preciso procurar muito e lá estava o David Luiz, mais a sua dama, tirei a máquina e comecei a tirar umas fotos discretamente, mas não estava a conseguir tirar fotos nítidas.

-Possa não consigo tenho que me aproximar mais, mas ele não me pode ver se não estou lixada.

- Fogo ele é mesmo bom – a Rita parecia um disco riscado, sempre a repetir a mesma coisa.

Aproximei-me mais um pouco e clic uma foto boa.

- Fixe consegui apanhá-los, vou tirar mais uma ou duas e é suficiente. E vamo-nos pirar daqui antes que eles nos veja - continuei a tirar.

- Já viu ele vem ai, foge - gritou a Rita mas já a desandar.

-Fujo? - fiquei apática.

– Ei, a menina aí, o que está a fazer? Pare com isso - gritou ele ainda de longe.

-Quem eu? - perguntei eu com ar de parva, não consegui fugir logo, fiquei paralisada.

– Entra - ordenou a Rita aflita.

Reagi aquele grito e entrei no carro fugindo do David Luiz. Ele ainda correu ao encontro do carro mas já não nos conseguiu alcançar.

– Uau, quero ser paparazzi, isto é muita adrenalina - a Rita ia eufórica.

- Detestei, ainda por cima olhei-o nos olhos, ele viu quem eu era.

- E achas que se te vir na rua te vai reconhecer? Claro que não. Não sejas convencida.

-Pois claro que não – e baixei o olhar.



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