Quando cheguei à Olhares a Rita já se encontrava no gabinete em frente ao computador a teclar, contei-lhe como tinha sido o meu almoço e o pequeno encontro com o David Luiz. Ela não tinha qualquer duvida que o craque me tinha reconhecido. Eu desvalorizei o acontecimento, talvez para me sentir mais confortável com a situação.
Em cima da minha secretária, tinha várias fotos de famosos espalhadas sem qualquer lógica, entre elas encontravam-se as de David. Ao olhar para elas desabafei:
- Só o facto de ver as fotos do David Luiz, sinto-me mal.
- Ele é lindo não é? Percebo a tua má disposição, eu também não gosto da foto, acho que devia estar sozinho, ou então com a minha pessoa ao lado, ficava bem melhor - gozou ela.
- O Rui ia gostar de te ouvir dizer isso.
- Oh, o Rui é um santo namorado, não se chatei-a com nada, nem ciúmes tem, às vezes parece que tenho uma múmia ao meu lado em vez de um humano. Estou a ficar fartinha, em dois anos de namoro a nossa relação não avançou em nada, só o facto de ficarmos mais velhos, preciso de novidade – desabafou a Rita.
Ficámos a tarde toda a desafogar as nossas mágoas, mas nunca descorando do trabalho, ao fim do dia a matéria estava prontinha para seguir para a gráfica.
- Ufa, foi uma tarde de trabalho durinha, sinto-me cansada, é que ter trabalho de dois fotógrafos cansa, mas o que vale é que hoje vou chegar a casa, tomar um banho quentinho, jantar, passear o Toni e cama, não vou pensar em mais nada – disse eu.
- E bem que mereces amiga, hoje fartámo-nos de trabalhar, quando vais lá jantar a casa? – perguntou a Rita.
- Quando me convidares – disse eu com cara de marota – mas esta semana não dá muito jeito, vou começar as mudanças para casa da Joana.
- Se precisares de ajuda para essas mudanças é só apitares que eu e o Rui vamos dar uma força.
- Obrigada...
- Ana – interrompeu o Borges, chamando-me à entrada da porta do meu gabinete.
O Borges era o jornalista do departamento de desporto, ainda não tinha tido oportunidade de trabalhar directamente com ele, mas gostava do seu ar despreocupado, mas ao mesmo tempo muito profissional, parecia estar sempre bem disposto, e as entrevistas dele aos desportistas eram sempre fantásticas e destacadas positivamente. Ele chegou a entrevistar o Bernardo e na altura gostei bastante do que li, nessa entrevista o Bernardo também não se esqueceu de mim, disse que eu (a namorada) era a melhor co-piloto que ele tinha alguma vez desejado, fiquei embevecida assim que li a reportagem.
O Borges tratava quase todos os futebolistas por tu (falo em futebolistas porque infelizmente é o desporto com mais visibilidade no nosso pais). Dizia-se nos corredores da revista que ele era benfiquista, mas sinceramente nunca consegui perceber se realmente o era, sempre que lhe perguntávamos qual era o seu clube ele respondia sempre que era da selecção Nacional.
Finalmente ia ter possibilidade de trabalhar com o Borges, o jornalista desportivo carismático da Olhares e do país. Tinha bastante admiração por ele.
- Sim pode dizer – disse eu já entusiasmada à espera de saber qual era o novo trabalho que aí vinha.
- Amanhã à tarde vais comigo ao estádio da luz, vamos fazer uma pequena reportagem sobre as cheerleaders do benfica , às três da tarde está bom para ti?
- Estádio da luz? – disse eu atrapalhada – não pode ser a outro?
- Outro? – o Borges riu-se – Vai ser às cheerleaders do Benfica, logo terá que ser no estádio da Luz – troçou mais um pouco de mim - elas vão passar a ser patrocinadas por uma nova marca e essa marca pagou-nos para fazer a publicidade.
- Mas que interesse pode ter uma dúzia de meninas bonitinhas, com umas roupas reduzidas, a dar saltinhos histéricos com uns pompons nas mãos – disse eu aborrecida.
- Olha que elas dançam quase profissionalmente, as coreografias e as músicas são muito bem pensadas e escolhidas, e além disso os jogadores e o publico adoram. Vais gostar, amanhã já terás uma nova opinião sobre as meninas.
- Talvez – respondi não muito convencida.
- Até amanhã, encontramo-nos às três horas aqui na redacção.
- Xau, até amanhã.
Mal o Borges virou costa pensei para com os meus botões – “que mal fiz eu a Deus para que nestes últimos dias só me esbarre com Benfica e benfiquistas”?
A caminho de casa não conseguia deixar de matutar que no dia de amanhã me poderia voltar a encontrar com o David Luiz no estádio da Luz , o facto de levar uma máquina fotográfica na mão denunciaria qual a minha profissão e aí ele não teria a minima dúvida que eu era a paparazzi naquela tarde. “Grande porra “ pensei eu, “ainda por cima a revista sai para as bancas amanhã, não me está a parecer nada bom, mas não me resta outra hipótese, tenho que ir mesmo com o Borges.”
"No final tudo dá certo. se ainda não deu é porque não chegou o final".
Jean Rostand
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